segunda-feira, 24 de novembro de 2014

ETERNOS FILHINHOS DE MAMÃE

Eles crescem com uma cabeça dirigida pra serem os machinhos e acabam não sendo homens inteiros

Por Maya Wolf


Andando por aí, tenho observado uma alta incidência de homens separados que voltaram a morar nas casas de suas mães. E não estou falando de homens de 19 anos, mas de 30 a 40, que já fizeram filhos lá fora, têm uma profissão e, geralmente, uma formação. Quando a casa do relacionamento desaba, eles retornam ao lugar de onde um dia saíram orgulhosamente para fazer suas vidas próprias.

Conversei com duas amigas sobre isso.

– Por que vocês acham que isso acontece? – perguntei.

– Roupa lavada, comidinha pronta, grana sobrando pra balada... É a lei do menor esforço, mais imaturidade... falta de cojones pra bancar a própria vida. – foi uma das respostas.

A outra foi que:

– A culpa é das mães, que criam as filhas pra casar e serem boas donas-de-casa, mas criam os filhos pra serem sempre filhos. O homem cresce e quer ter uma mulher pra comer e uma mãe pra fazer comida. Quando não dá mais pra comer a mulher, volta pra comida da mãe...

– E já chega dando ordem, viu, bem.....?! – completou a primeira.

Eis o que eu acho: penso que o que mais faz falta pra eles, que experimentaram a casa da mãe e a vida de casados, é saber fazer a coisa funcionar. As mulheres sabem, melhor que eles, como criar um lar, um lugar organizado e acolhedor com tudo o que eles precisam pra sobreviver. (Sim, sobreviver!)

Eles crescem com uma cabeça dirigida pra serem os machinhos e acabam não sendo homens inteiros. As famílias ficam com bobagens de “isso coisa é de homem”, “aquilo é de mulher”. Depois, eles não sabem se virar e voltam correndo pras mães.

Se soubessem mais sobre Donald W. Winnicott e sua teoria do cuidado materno, será que isso ajudaria essas mães a criar condições de autonomia para os seus meninos? Segundo ele, toda criança precisa de uma mãe suficientemente boa, que vá saindo de cena e deixando a criança virar um ser inteiro, maduro. Não, esses “garotos grandes”, que a gente vê por aí e acaba casando com eles...

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O MELHOR RELACIONAMENTO

Haja inteligência, bom humor, criatividade e disponibilidade interna para seguir juntos

Por Maya Wolf



A busca da fórmula infalível do bom relacionamento já rendeu muitos livros, crônicas e frases.

Falando de frases, gosto desta: “O melhor relacionamento não é aquele que une pessoas perfeitas. Mas aquele em que cada um aprende a conviver com os defeitos do outro e admirar as qualidades.”

Ela se encaixa perfeitamente em outra com que concordo, do consultor de empresas Stephen Kanitz em seu artigo “O contrato de casamento”: “O objetivo do casamento não é escolher o melhor par possível mundo afora, mas construir o melhor relacionamento possível com quem você prometeu amar para sempre.”

Ambas são frases “pé no chão”, realistas, diferentes do romantismo delirante de certas mentes imaturas emocionalmente, que contam somente com o amor como substância cola-pessoas.

Mas a minha frase predileta, não só por ser minha, mas também por ser a que traz maior conteúdo de vontade e decisão é: O melhor relacionamento é aquele que ambos realmente querem e o resto se resolve pelo caminho!

Essa frase traz dentro dela a ideia de que amar uma pessoa e querer um relacionamento são coisas diferentes. São, até certo ponto, ideias contraditórias.

Um relacionamento (não só um casamento) é um tipo de contrato e contrato é um acordo de vontades. Acordos e contratos prendem as partes a regras, enquanto o amor libera, amplia, transborda e não se submete.

O sentimento e a emoção têm seu papel. Contudo, eles variam em intensidade no dia-a-dia, que traz seus desafios e suas questões, que nos encontra em diferentes condições psicológicas e emocionais. Haja determinação, inteligência, bom humor, criatividade e disponibilidade interna para seguir juntos mantendo a relação saudável, visto que o próprio amor também pode adoecer perante a rotina, a dificuldade financeira, a enfermidade, a imaginação patológica e o cansaço.

A vontade, por sua vez, decide até mesmo à revelia do sentimento – não que seja o caso...

Relacionamentos duradouros, isso já deve estar claro, também não se baseiam em paixão ou loucura, nem em atração sexual. Nem mesmo nesse amor que cada um que declara entende de um jeito. Mas principalmente em decisão e vontade, em valores como respeito, parceria, lealdade e confiança. Sobretudo, relacionamentos duradouros são baseados em vontade firme de se envolver e de se comprometer.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

EU ME CURTO

A vida privada não é um exílio. É uma necessidade

Por Maya Wolf



Essa superexposição da vida nas redes sociais está criando umas situações e exigências ridiculamente impossíveis. Rir constantemente. Fazer coisas publicáveis. Estar sempre preparado para uma selfie.

A busca pelas “curtidas” faz querer escrever coisas sempre boas, bacanas, descoladas. Com o tempo, podemos nos tornar dependentes disso. Estar bem, sentir-se feliz ou abençoada, vai virando uma imposição e parece que ficar triste, chateada, experimentar rejeição, são coisas pra realmente se esconder e vivenciar na solidão da vida offline.

Claro que é o ego que pensa assim. (Como todo tipo de dependência, esta também atende diretamente ao ego...) É o ego que precisa de curtidas. 


E claro que é bacana receber um presente, passar a tarde com o namorado ou amigos, na praia. Ir jantar num lugar bonito.

Mas, e quem está cansada de carregar dentro de si um estado emocional incômodo e pesado, memórias sobrevoando a mente e pousando como desagradáveis pernilongos que não dão sossego, resolve como? Expõe onde?

Se estiver brava, triste ou envergonhada pelo que sente, pode t
er vontade de se recolher. De não se expor. Uai, há coisas dignas de serem sentidas e que não são feitas pra se postar!

A vida privada não é um exílio. É uma necessidade e um sintoma de saúde, quando se consegue ficar confortável na companhia de si mesma. Retirar-se pra colocar a cabeça no lugar, uma medida de equilíbrio.

A ideia de que a gente precisa estar sempre feliz, a fim de dizer coisas boas pros outros, sempre satisfeita e grata por tudo, é um mito. Um mito que essa vida virtual vem reforçando, até porque ela dá uma impressão de sermos outra pessoa e vivermos outra realidade. Sobretudo quando é difícil aceitar uma realidade “real” que é muito diferente da que se deseja...

As pessoas não são feitas apenas do que se permitem expor nas fotos e posts. As pessoas são compostas de camadas que aparecem sempre, camadas que vez por outra dão as caras e, outras camadas ainda, que nunca vemos. E nem sabemos as razões.

Algumas pessoas, com tudo isso, inspiram simpatia e confiança. Outras, estranhamento.

Algumas se tornam próximas e confiáveis, por motivos que não conseguimos identificar. Mas uma coisa eu aprendi: que a mais próxima e mais confiável de todas precisa ser sempre a gente mesma.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

RADIOGRAFIA

Você estará em meio à energia que semeia ao seu redor

Por Maya Wolf



As melhores lembranças são sempre as que mais doem. E doem porque estou machucada, se não, me acalmariam e alegrariam. Ainda estou meio esfolada do namoro que terminei e é visível, isso.

Mas estou aqui tentando diagnosticar o seu caso, não o meu. Você diz coisas bacanas, mas age como um cretino. Tenho opções:

1) Você age como se não tivesse sentimentos. Quem tem sentimentos, não pode agir como você. Logo, você é um insensível.

2) A alternativa é que você seja um moleque, um inconsequente. Que você não tenha ideia de como sua falta de honestidade pode doer nas pessoas e ache que tudo é uma brincadeira.

3) Ou então, encontrou alguma boa desculpa pra fazer o que faz. Há montanhas de desculpas que as pessoas dão pra si mesmas, pra fazer o que querem e não o que é o mais correto. Pensam que isso não vai machucar, mas sempre alguém se machuca, de algum jeito.

E quem agiu dessa forma com o outro se machuca também. Tem perdas. Tem um caminho pra refazer... Já notou? A menos que seja, mesmo, o caso da Opção 1 e não ligue a mínima... Ou um simples 4:

4) Você é um sádico, que se diverte com o sofrimento dos outros.

Mas, apesar de tudo, pensando amplamente, não quero ter nada mais com isso e fico com Lou Reed em “Perfect day”: “Você vai colher aquilo que semear...
” Não por algum tipo de punição divina, em que não acredito e, sim, porque as pessoas leais e verdadeiras vão querer ficar longe de você. E você estará em meio à energia que semeia ao seu redor. 

Eu estarei com a energia que eu semeio. Cada um com a sua, daqui pra frente.

A vida tem um jeito de juntar pessoas que têm a ver, eu é que andei discordando dela, achando que você tinha a ver. Fui idiota, deixei a sua brincadeira, desonestidade e/ou crueldade, irem longe demais. Foi um momento de fraqueza ou de carência, mas isso também passa.

Já estou sarando, enquanto escrevo isto. E você?