segunda-feira, 10 de novembro de 2014

EU ME CURTO

A vida privada não é um exílio. É uma necessidade

Por Maya Wolf



Essa superexposição da vida nas redes sociais está criando umas situações e exigências ridiculamente impossíveis. Rir constantemente. Fazer coisas publicáveis. Estar sempre preparado para uma selfie.

A busca pelas “curtidas” faz querer escrever coisas sempre boas, bacanas, descoladas. Com o tempo, podemos nos tornar dependentes disso. Estar bem, sentir-se feliz ou abençoada, vai virando uma imposição e parece que ficar triste, chateada, experimentar rejeição, são coisas pra realmente se esconder e vivenciar na solidão da vida offline.

Claro que é o ego que pensa assim. (Como todo tipo de dependência, esta também atende diretamente ao ego...) É o ego que precisa de curtidas. 


E claro que é bacana receber um presente, passar a tarde com o namorado ou amigos, na praia. Ir jantar num lugar bonito.

Mas, e quem está cansada de carregar dentro de si um estado emocional incômodo e pesado, memórias sobrevoando a mente e pousando como desagradáveis pernilongos que não dão sossego, resolve como? Expõe onde?

Se estiver brava, triste ou envergonhada pelo que sente, pode t
er vontade de se recolher. De não se expor. Uai, há coisas dignas de serem sentidas e que não são feitas pra se postar!

A vida privada não é um exílio. É uma necessidade e um sintoma de saúde, quando se consegue ficar confortável na companhia de si mesma. Retirar-se pra colocar a cabeça no lugar, uma medida de equilíbrio.

A ideia de que a gente precisa estar sempre feliz, a fim de dizer coisas boas pros outros, sempre satisfeita e grata por tudo, é um mito. Um mito que essa vida virtual vem reforçando, até porque ela dá uma impressão de sermos outra pessoa e vivermos outra realidade. Sobretudo quando é difícil aceitar uma realidade “real” que é muito diferente da que se deseja...

As pessoas não são feitas apenas do que se permitem expor nas fotos e posts. As pessoas são compostas de camadas que aparecem sempre, camadas que vez por outra dão as caras e, outras camadas ainda, que nunca vemos. E nem sabemos as razões.

Algumas pessoas, com tudo isso, inspiram simpatia e confiança. Outras, estranhamento.

Algumas se tornam próximas e confiáveis, por motivos que não conseguimos identificar. Mas uma coisa eu aprendi: que a mais próxima e mais confiável de todas precisa ser sempre a gente mesma.

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