sexta-feira, 27 de junho de 2014

TRILOGIA DA TRAIÇÃO I: A DOR DA TRAIÇÃO

O que fizer, não faça por baixeza e mesquinhez

Por Maya Wolf



A dor da traição tem dois componentes estatisticamente relevantes. Tanto na força que adquirem dentro de nós, quando na quantidade de mulheres que passam por eles:

1. Querer fazer doer no outro com a mesma força que doeu na gente.

2. Tentar se sentir melhor provando que ainda consegue atrair alguém.

Já passei pelas duas e pode estar certa de que doer no outro não melhora nada o que você sente. Você não se cura, machucando o outro. Você pode até achar que foi “vingada”, mas isso dura pouco e não costuma acrescentar nada de positivo à sua vida, além de (geralmente) iniciar uma sequência desagradável de acontecimentos e revanches que não vão permitir que você se solte da antiga história.

E você merece viver uma nova história.

A gente condena o outro porque julga e a gente só julga porque não se enxerga direito. Porque não percebe que podia viver algo semelhante e escorregar no mesmo trecho do velho caminho das atrações instantâneas, dos encantamentos fáceis. A dor distorce a visão, já limitada, de nós mesmas.

Não querer mais ficar com ele por causa disso, é um direito. Perdoar e tentar remendar o tecido do relacionamento, também. O que fizer, não faça por baixeza e mesquinhez. Faça de acordo com a sua consciência e vai se sentir bem.

Podemos, ainda, achar que o outro se desinteressou de nós por nossa causa e, então, ficamos ansiosas pra ver se nossa capacidade de conquista ainda funciona. Mas isso também pode criar uma sequência indesejável de acontecimentos. Caras novos eventualmente fazem você se sentir viva, mas frequentemente decepcionam... Enfim, outra decepção pra sua lista.

A lei do carma, versão Aerosmith em “Dream On”, diz: “Vivendo e aprendendo dos tolos e dos sábios, você sabe que é verdade: tudo que você faz volta para você...” Moral: Melho
r ser a sábia que ser a tola. Moral 2: Essa volta vale pro ruim e pro bom.

terça-feira, 24 de junho de 2014

CASAR NÃO É GARANTIA

Bom estar juntos e compartilhar, mas é preciso estar inteiro pra ter o que somar

Por Maya Wolf 



Você traz na sua cabeça a ideia de um casamento, de um relacionamento consistente, duradouro, fortemente baseado em respeito, admiração mútua e atração que se mantém no correr dos anos. Talvez tenha passado boa parte da sua juventude planejando e preparando isso.

Você mergulha de cabeça, sonha, luta, faz concessões. Você é do tipo carinhosa, dedicada, sabe o que fazer numa cama, tem boas conversas. Não é superficial nem aproveitadora, mas está disposta a realmente permanecer ao lado da outra pessoa, cuidar na doença, celebrar na alegria, ajudar nos apertos... Um dia, parece que seus objetivos se distanciam e quem pensou ser uma alma companheira vira um desengano, quando não, um desapontamento.

Nas piores hipóteses, um passado. Na melhor das hipóteses, uma bela lembrança. Mas, onde foi parar você, no meio disso tudo?

Talvez vocês dois tenham se perdido na confusão da vida comum. Talvez, o distanciamento seja simplesmente um sintoma da necessidade de reencontrar o que um dia vocês foram, o que um dia almejavam. Sua espontaneidade mais essencial.

Talvez haja remédio; talvez, não.

Mulheres fazem concessões sobre concessões como se fosse normal. Porque era pra ser bom estar juntos e compartilhar, mas no fundo, às vezes, é você que faz tudo, simplesmente porque ainda enxerga nele algo bacana (nem que seja transar com você e – thanks God! – não te bater...).

Mas compartilhar é mútuo e é preciso estar inteiro para ter o que somar. E há casos em que investimos tanto de nós, que ficamos sem reserva. Não é bom fazer isso, como se o sentimento ou relação fossem eternos, porque nada disso é garantido.

Nem você, com toda a sua autodoação interna, pode garantir que nada vai mudar, porque há mais coisas envolvidas ali que a outra pessoa e essa sua vontade férrea e empenho de Atlas, que é aquele ser mitológico que carrega o mundo inteiro nas costas.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

O JOGO DO SEDUTOR

Você entra no jogo porque precisa acreditar no que ouve e vê

Por Maya Wolf



Um jogo consiste numa atividade física ou intelectual com regras. Regras são padrões de conduta que os jogadores aceitam para participar do jogo. Se não há aceitação de regras, não há jogo possível.

Como é que eu jogo xadrez com um oponente que não segue as regras? Não tem como!

Talvez você já tenha reclamado, já tenha entrado no jogo de um sedutor inveterado, um inseguro obcecado pelo poder que exerce sobre as mulheres, a fim de confirmar seu poder para si mesmo.

Pense: você compra um número de rifa e fica satisfeita enquanto espera o sorteio. Quando ele acontece e você perde, vai reclamar que o número foi caro, que a organização agiu errado? Vai desdenhar o prêmio que, afinal, você perdeu?... Quem aceitou jogar, pra começar?

Pois bem, o sedutor só joga esse jogo porque você entra nele. Porque você é seduzível.

Existe algo em você que quer acreditar no que ele diz, na sua atenção, na sua gentileza, nas coisas agradáveis que ele observa em você. Você fica capturada pelo olhar que não desvia do seu, mas, não porque você o prendeu e, sim, porque você é a presa da vez.

O caso é que você entra no jogo porque precisa acreditar no que ouve e vê. Você não se gosta o bastante. Também anda meio insegura sobre sua aparência, seu poder de sedução. Por isso, sua mente crê que no que ele diz e faz. Desse modo, você se sente melhor consigo mesma, se sente em forma e atraente, reconhece suas qualidades. 

Muitos relacionamentos até sobrevivem dessas mentiras, por um período. E quando vêm as desilusões inevitáveis, no tempo que é irmão da verdade, talvez você já esteja tão habituada que decida manter o jogo. Só pra não ficar sem jogar com ninguém. O que faz de você tão jogadora quanto ele.

terça-feira, 17 de junho de 2014

ERRO DE PESSOA, OU PESSOA ERRADA

“Cada um acredita, facilmente, no que teme e no que deseja”

Por Maya Wolf



Sofrer por “amor” é um antigo clichê músico-literário, tão sem sentido quanto falso por princípio.

Não se sofre por amor, mas por desapontamento, por exemplo. Seja por traição ou deslealdade, seja pela tardia descoberta de qualidades que tornam impossível seguir com o relacionamento: ele é casado, ela é interesseira, é controlado pela personalidade da mãe, é mentirosa, tem brinquedinhos estranhos no closet, flerta com qualquer um...

Sofre-se também por saudade ou apego, que são falta e, não, amor.

O amor não é a causa do sofrer, mas acaba mal afamado. A causa é frequentemente a própria ilusão. Como escreveu La Fontaine na introdução às suas Fábulas, “cada um acredita, facilmente, no que teme e no que deseja”.

Quando você sofre por descobrir quem de fato uma pessoa é, você está sofrendo pela falsa imagem que antes você tinha. Mas ela nunca foi essa imagem, de que você tanto gostava e de quem provavelmente vai ter saudades.

Em Direito, segundo Jesús Hortal, “erro” acontece quando há um juízo falso da inteligência. Erro de pessoa é um dos casos e inclui uma situação em que se pode casar com a pessoa errada, imaginando que fosse a certa, o que anula o casamento.

Em última instância, no seu caso, você se apaixonou por uma imagem na sua cabeça e se envolveu por acreditar que a imagem fosse a própria pessoa.


Mas não existe muito consolo na realidade, então é provável que você queira ainda acreditar nessa imagem, pra sentir que o tempo investido não foi tempo perdido... Nem sempre vai ser fácil e pode demorar até você aceitar que se tratava da pessoa errada.

sábado, 14 de junho de 2014

O QUE SIGNIFICA UM BEIJO

Eu ainda vivo num tempo meu, em que as palavras e gestos são significativos

Por Maya Wolf



Eu não me sinto à vontade num mundo em que as pessoas beijam só por beijar, dizem por dizer, transam por transar. E depois dizem que não significou nada.

Pra mim, um beijo tem um significado. Ou muitos.

Quando beijo no rosto, expresso a alegria e o carinho ao encontrar um amigo ou familiar.

Quando beijo na testa, desejo o bem dessa pessoa e é como se a abençoasse.

Quando beijo as mãos, transmito respeito e, às vezes, gratidão.

Quando beijo a boca... bem, depende do beijo.

Quando beijo o sexo, digo que desejo e declaro que me entregarei aos desejos de nós dois.

Gosto de pensar que há uma interioridade por trás das palavras, beijos e gestos. Uma razão medianamente profunda, dentro de quem me fala, me beija, me deseja, assim como os meus movimentos e sons levam ao outro a demonstração (nem sempre voluntária e medida, mas real) do que estou sentindo.

Eu ainda vivo num tempo meu, em que as palavras e gestos são significativos.

Não é como sexo-passatempo. Não é como a quantidade de bobagens que a tevê diz ou mostra, apenas para nos manter entretidos e como se não tivéssemos importância de verdade, exceto como audiência. Eu não quero estar com alguém desse modo. Não sou estatística.

Quero entender. Quero participar e quero que funcione aquilo que temos. Se possível, que fale a minha língua, a língua da minha boca, dos meus olhos... Acredito em Nelson Mandela quando disse que se falarmos com alguém numa língua que ele entenda, isso vai para sua cabeça, mas se falamos a sua própria língua, isso vai para o seu coração. Quero alguém que fale na minha língua.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

É GOSTOSO SE ILUDIR

Não tem ilusão que não despenque de onde está

Por Maya Wolf



É comum as pessoas sentirem saudades do tempo em que eram ingênuas. Falarem do tipo de doce de que gostavam e que não se fabrica mais. Um tempo em que era possível brincar com a realidade, na maioria das vezes, sem ferimentos sérios.

Mas não sei se o que temos são saudades do tempo em que éramos enganados pela aparência das coisas ou se nossos dourados devaneios é que foram sendo abandonados pelo caminho, com sintomas de inanição pela falta de doce quem ninguém mais faz igual.

Sei que o que conservamos, forte e robusta, sempre pronta para agir, é a capacidade de autoilusão. Afinal, é gostoso se iludir, embora possa até dar algum trabalho, como vimos em “Ele não está tão a fim de você” (2009).

Ilusão é doce, segundo dizem. Tem quem goste do fácil brigadeiro e quem prefira o trabalhoso marzipan.

O problema é que não tem ilusão que não despenque de onde está, algum dia. Por mais que se esforce para não ver, a realidade está lá e, mais cedo ou mais tarde, ela rompe o dique que se construiu.

E é quando tudo pode parecer muito amargo pra você... Esse é o preço que você paga pelo tempo da doce ilusão perdida.

Gostei de uma frase que li no Face, outro dia: “Let your past make you better, not bitter.” “Permita que o passado torne você melhor, não amarga.”

Os anos passam pra todas nós e vêm trazendo mais que desilusões e golpes duros de realidade. Eles revelam nossa força e inteligência, nossa capacidade de amar e de tornar nosso entorno um lugar mais agradável. Eles trazem a alegria dos afetos, aprendizados, pessoas, lugares, oportunidades.

Tente não amargar, azedar, estragar-se na negação da possibilidade real de ter uma vida bacana. (Embora não perfeita, pois vida perfeita já nem é mais ilusão. É puro delírio...!)


sexta-feira, 6 de junho de 2014

MONOGAMIA

Eu me dedico a um único amor de cada vez

Por Maya Wolf



Eu sou um ser monogâmico, quer dizer, eu me dedico a um único amor de cada vez. Gosto de ser assim e sei que assim sou mais feliz; nem melhor, nem pior que quem prefere variar ou, até, defende a promiscuidade. Mas nisso, não vejo a mínima graça.

Não acho que sou careta. E nem tem a ver com religião ou moral. Apenas não quero me dividir, nem ter de criar situações, mentiras, desculpas para estar com outra pessoa, porque sou um ser íntegro e desejo estar inteira no meu amor e no meu prazer.

Quero estar plena com o parceiro e conhecer seus pensamentos, seus interesses, suas lutas, suas preferências. Estar com ele, além disso, se precisar de minha presença ou apoio. Conversar, conviver.

Afinal, ele não é meu brinquedo ou meu fetiche. Muito menos, minha fantasia. Ele não é só um pênis com que brinco de me estimular. Não é um item colecionável, figurinha fácil ou difícil (embora existam os que são vulgarmente grudentos).

Ele é um homem, nós nos escolhemos para uma jornada. Não me sinto, porém, presa a ele, porque estou exatamente onde quero e essa alegria me preenche os dias.

Quero um homem para aprendê-lo, para degustá-lo, para segurá-lo com meus braços, bem coladinho em mim, sentir seu coração, seu peito arfar, enquanto me segura, beija e penetra. Quando estou com ele, assumo minha persona tântrica: ele é meu deus e eu sou sua deusa. Não somos partes somente, nada mais há lá fora: estamos inteiros na preparação de um gozo supremo, transcendental.

Se ele souber o que sei, teremos horas de prazer profundo e intenso.

Mas se ele desconhecer o que sei e apenas entregar-se ao meu toque, se eu reconhecer em seu coração a beleza e a bondade que dão sentido ao Universo, ele será Shiva e eu, Shakti, e o cobrirei de oferendas e carinhos por longos e suados dias de êxtase a dois, passeios, risos, filmes e caminhadas sob o Sol.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

VOCÊ NÃO PRECISA SE FACILITAR PROS OUTROS

Seria estupidez se rearranjar inteira, cada vez que alguém chega ou parte

Por Maya Wolf



Pouca gente está contente com aquilo que é. Isso tem um lado que pode ser positivo, porque leva a aprendizagem e superação de limitações (a maioria delas, instalada na cabeça da mesma gente).

Mas também é comum pensar que tudo vai realmente melhorar quando você tiver algo que não tem ou quando estiver com alguém que anda rodeando seus pensamentos. Você parece que foi criada com algum defeito de fabricação, pois se vê insuficiente para suas necessidades básicas e não veio com bateria extra como item de fábrica.

Então, vai atrás de outro e quer chamar isso de amor. Geralmente apoiada em frases mal entendidas, pretensamente românticas, como a que é atribuída a Gabriel García Márquez: “Te amo não por quem tu és, mas por quem sou quando estou contigo.” Autoria, essa, bastante improvável.

Pra começar, você não pode se definir pelas pessoas com quem se relaciona. Porque as pessoas vêm e vão. Estão ali e, depois, não estão. Seria estupidez se rearranjar inteira cada vez que alguém chega ou parte.

Você também não é uma coisa só, mas um monte de coisas. Você não é só bonita. Só madura. Só culta. Só empresária. Só mãe. Só esposa. Você é o que viveu, o que leu, o que lhe agradou, o que sacudiu a sua vida, o que descobriu e as mudanças que fez em si.

Agora não pode fazer um resumo de si mesma, como uma dessas adaptações fracas de boa literatura, feitas especialmente para quem vai prestar concurso. Vai faltar pedaço, vai faltar profundidade, vai faltar aquilo que faz de você, você. Você não precisa se facilitar pro outro, só pra se encaixar no espaço que ele pode lhe dar.

No clássico “Layla”, Eric Clapton pergunta: “O que você vai fazer quando você se sente só e ninguém está esperando ao seu lado? Você está fugindo e se escondendo há muito tempo.” Não se esconda atrás de ninguém ou dentro da vida de alguém.  

Tudo bem! É normal querer experimentar a companhia de um homem e se interessar pelo que ele se interessa. Ler o que ele lê. Ouvir o que ele ouve e frequentar os seus lugares preferidos. Aproveite para ampliar seus horizontes. Mas lembre: nada disso define o que você é.