segunda-feira, 25 de agosto de 2014

MUITO SEXO, POUCA INTIMIDADE

Existe um prêmio para os corajosos, os que não têm medo de abrir seu coração

Por Maya Wolf


É a cara dos nossos dias. Publicidade cheia de referências sexuais, erotização precoce da infância... E vendo como “todo mundo está fazendo”, parece que as pessoas têm mais necessidade de “fazer” ou de parecer que estão “fazendo”.

Sexo casual, sexo com estranhos são lugares muito solitários. É algo esvaziado que se esgota em si mesmo, como masturbação... Não sobra espaço pra expressão de sentimentos verdadeiros, não há intimidade.


Intimidade é se sentir à vontade pra ser totalmente você, diante do outro. E acolher o ser do outro da mesma forma. É conseguir chegar realmente perto.


Tem muita coisa escrita sobre medo de intimidade. É que se eu mostrar muito do que sou, se o outro tiver um acesso tão pleno e profundo à minha interioridade, vai saber minhas fragilidades e isso me faz frágil diante dele. Dependendo de sua índole, talvez ele até se aproveite desse acesso, para me ferir. Talvez descubra algo que o faça me rejeitar...


No final dos anos 60, as canções do Velvet Underground mostravam como às vezes lidamos com nossas dificuldades com sexo por meio do grotesco, do burlesco e das chamadas "perversões", porque há em nós uma energia que precisa fluir de algum modo. Gostemos ou não. Aprovemos ou não.

Existe, contudo, um prêmio para os corajosos, os que não têm medo de abrir seu coração. Porque nessa aventura cúmplice e parceira, também nos encontramos e nos descobrimos em situações inusitadas, em sentimentos novos. Como Antonin Artaud escreveu a Anais Nïn:

“Eu nunca acreditei encontrar em você a minha loucura. Você tem o mesmo silêncio que eu. E você é a única pessoa diante de quem o meu próprio silêncio não me incomoda. Muitas coisas nos aproximam, mas, sobretudo uma; o nosso silêncio.
Eu quero de você abraços violentos, quero descansar em você e que possamos sentir essa vibração total, eu e você, essa vibração que desperta as coisas do espírito. Somente com você um abraço pode não ser inútil.”

Tem muita coisa envolvida na intimidade que os atletas sexuais ignoram (fazem de conta que não sabem) ou desconhecem (realmente não sabem). Acho que fazer sexo a toda hora é um jeito de mal entendê-lo. De “profaná-lo”. Porque tudo é gostoso em clima de intimidade, quando não é preciso se esconder ou planejar o que dizer/fazer! Assistir TV, cozinhar e comer, lavar louça e deitar... Gostoso como fazer amor na vida, sem nunca parar.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

ISTO NÃO É AMOR II: VOCÊ É UM BOLO DE CAIXINHA?

Quando parar de fingir pra ficar à vontade


Por Maya Wolf



Eu queria entender por que é que tem mulheres que nunca se consideram suficientemente boas, do jeito que são. Suficientemente belas. Suficientemente interessantes. Ficam se comparando e nivelando por baixo e, depois, pra compensar, querem usar um “vestido poderoso”.

Clarice Lispector escreveu em Um sopro de vida: “Eu antes era uma mulher que sabia distinguir as coisas quando as via. Mas agora cometi o erro grave de pensar”.


E parece que o pensamento feminino anda confuso, perdeu aquela clareza de olhar e ver. Se não, pensa: O que afinal você tem de errado? Sério...

Isso é sobre conquistar homens? Então, o que é que esse cara tem de tão maravilhoso, pra você ser tão autocrítica?

Pra se forçar a ser algo que nunca foi?

Você procura dizer coisas apropriadas, que o interessem, mesmo que não seja o que queria dizer. Concorda com ele só pra não discordar. Então você finge.

Homens, no entanto, também fingem. Fingem ser solteiros. Fingem querer um futuro. Fingem ser o que se encaixa na procura feminina. Ou na fantasia das mulheres.

O que eu me pergunto é: até onde isso vai? Quando é que enfim a gente pode se sentir liberada pra aparecer pra ele como realmente é? Pra falar o que realmente pensa e não o que “fica bem”? E andar descalça etc.

E o que é que isso vai representar, a partir de então? Que ele foi laçado e, portanto, passou a ser seguro mostrar o que somos?... Tudo isso me parece insano ou maquiavélico, não tem nada de amor aí...

Veja, eu não sou uma expert da cozinha, mas faço umas coisas gostosas. Agora, vou fazer de conta? Pra enganar quem?

No dia a dia, um bolo de caixinha é uma praticidade. Resolvo um lanche com uma mistura pronta, sem peso na consciência. Eu sou isso, goste ou desgoste.


Tem mulher que gasta fortunas só pra se sentir um pouco melhorzinha. Mas no mundo dos fingimentos, nem sempre ela sabe se está pagando preço de bolo de noiva, enquanto é degustada como se fosse mais um bolo de caixinha. 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

SER BELA E ESTAR BELA

A vida fica mais fácil quando você se solta do que está te prendendo 

Por Maya Wolf




Se você já sentiu alguma raiva das muito bonitas e bem vestidas, você não está sozinha. Acredito que essa é uma das possíveis razões por trás da disseminação astronômica daqueles memes com a imagem do Boromir da Sociedade do Anel, que dizem: “Se encontrar uma mulher com mais livros que sapatos, case com ela.” Raiva e despeito, talvez...


Bom, O Senhor dos Anéis já é fantasia. Casar com Boromir, mais ainda. Agora, achar que um cara vai casar com uma baranga ressentida só porque ela tem uma biblioteca... isso é mesmo final de carreira!!! Mas não de solteirice.

Homens sempre vão olhar pras explicitamente bonitas. Elas entram num lugar e sugam os seus olhares como um grande aspirador. Eles não podem evitar. Mas também não vamos exagerar o significado desse impulso masculino: ele não está obrigatoriamente pensando em te trair e, cá entre nós, talvez nem tenha uma chance real.

Ou tudo o que você acha bonito, já pensa em ter e partir pra cima?... Só se foi louca! Ou infantil.

E se for uma questão de raiva mesmo... sério, não adianta se embarangar, como forma de protesto silencioso. E esperar aparecer algum admirador de Dostoiévski que queira ouvir seu papo intelectualoide (embora esteja no seu direito, se for este o seu desejo). Beleza é um conceito e viver num protesto constante contra ele é incorporá-lo, sem necessariamente parar de sofrer com ele. E a vida fica mais fácil quando você se solta do que está te prendendo.

Não tem nada de ruim em ser bela e inteligente. São duas qualidades que remetem ao Divino.

Há, contudo, diferença entre ser bela (atributo essencial) ou estar bela (ter emagrecido, passado a tarde no salão ou sair de sapatos novos). Ser bela é um todo, não uma casca. Inclui a beleza das palavras, dos gestos, das ideias, das atitudes. A beleza de um saber que não é metido a besta, do respeito, gentileza, humildade. Do sorriso aberto e alegria de viver.

Se a beleza está só na forma, ela é pouca. Ela pode seduzir, mas não permanece interessante por muito tempo e, nem necessariamente, fideliza. Quem te pegou como um troféu, daqui a pouco irá atrás de outro.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

ISTO NÃO É AMOR I: "SE ELE ME DEIXAR, VOU MORRER?"

Quando se começa a agir somente em função de receber um "eu te amo"

Por Maya Wolf




Ninguém quer pensar no fim, ninguém quer lidar com o fim. Por causa disso, às vezes a gente deixa certas coisas chegarem muito longe, na nossa vida... Mascara a realidade.

É muito gostoso ouvir ou perceber que alguém ama você. Mas quando se começa a agir somente em função de segurar uma pessoa, deve haver algo doente e mais profundo a se descobrir por trás disso. Há algo errado. Um sintoma de dependência, que é doença e, não, amor. 


Algumas mulheres podem fazer muito em troca de um “eu te amo”, de uma sensação de parceria. E “eu te amo” é bem diferente de “eu te amo mais que a vida e se você me deixar, eu morro”...

Quando o relacionamento termina, a vida pode mesmo parecer um caos. Sintomas de abstinência, como se faltasse a sua droga. Fica difícil raciocinar.

Por um tempo, você ainda se percebe apenas em relação ao ex e se sente “a sozinha”, “a largada”, “a separada”. Só aos poucos vai se sentindo simplesmente você mesma. Bem normal. Sem um homem como adereço de autoafirmação.


É que tiraram o seu vício. No começo é estranho. A mente está viciada em pensar no cara, mas o desconforto tende a diminuir. Com calma e coragem, você acaba achando o seu equilíbrio. Vai se sentir você, completa como sempre foi, mesmo sem saber que era. Vai se sentir você mesma e muito bem desse jeito.

Quando a onda baixa, você vê que existe vida após o rompimento. Eventualmente irá se lembrar de um tempo em que vivia sem a companhia dessa pessoa... e vivia até bem!!!

Dica dos Narcóticos Anônimos que vale aqui: pra não recair e se sentir melhor, evite hábitos, pessoas e lugares que façam pensar nele. É o pensar que leva à tristeza, à saudade, à dor e à recaída.

Amar não significa apoiar-se no outro. Companhia não significa segurança ou garantia. Enquanto pensa assim, você pula de uma relação pra outra sem se firmar sobre as próprias pernas. Mas no final das contas, é sempre você quem se garante, e mais ninguém.