segunda-feira, 29 de setembro de 2014

VOLTAR A SAIR

Não é boa ideia continuar pensando e agindo em função de um "ex" e de um relacionamento que terminou 


Por Maya Wolf



“Antes só que mal acompanhada” é um ditado que nem sempre convence quem acabou de terminar uma relação. Quando se está ressentida, um dos efeitos desse ressentimento é não querer ficar mal sozinha.

Quando se está ressentida com um ex-namorado, é comum querer ficar bem e, como a coisa não está interiormente resolvida, querer se sentir melhor usando as oportunidades possíveis para atacá-lo de formas diretas ou indiretas.

Postar selfies sorridentes ao lado de bonitões no Face, contando com que ele veja ou os amigos mostrem pra ele, é uma forma indireta. Entrar na sua casa e picar suas roupas (atenção: ambos são crimes perante o Código Penal Brasileiro!) é um exemplo de forma direta.

Mas nunca será boa ideia continuar pensando e agindo em função de um "ex" e de um relacionamento que terminou. Abrir mão do passado é saudável e não nos diminui, basta percebermos que não vale a pena nos apegarmos a uma história que faliu.

O mais difícil, contudo, é lidar com as emoções: a raiva, a tristeza. Dar a si mesma o direito ser “emotiva” é bacana, mas pede algum autodomínio. É comum reagir sem medir o real significado e as consequências.

E também é comum não ver o que está por trás: o orgulho ferido e o ressentimento, de que é importante se libertar.

Portanto, pare de procurar pessoas novas pelas razões erradas. Porque, no final das contas, podemos nos envolver e acabar com alguém que não tem nada a ver conosco. Outro equívoco de que podemos nos arrepender.

Um novo relacionamento precisa acontecer quando nos sentimos prontas pra ele, não para superar o outro, que não deu certo. Isso tende a virar um círculo vicioso de infelicidades, cuja causa nem sempre percebemos. E se não percebeu ainda, comece a prestar atenção.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

PERDER PESO

Histórias que não acabam bem deixam seus resíduos

Por Maya Wolf




Ando carregando coisas demais. Acho que é hora de soltar algum peso extra. No mínimo, facilita a caminhada. Sobretudo, porque ainda penso em ir muito longe.

Quero caminhar novamente. Seguir inteira, sem me sabotar. Ser um pedaço significa jamais se entregar, jamais mergulhar. Fica chato. Vou com tudo, mas preciso de mim, na mesma medida em que preciso jogar fora aquilo que me enrosca num passado que entristece. Deixar lá o que é de lá.

As histórias que não acabam bem deixam seus resíduos. O ego pode ser implacável e é a primeira grande tralha a abandonar: deixar de jogar toda a responsabilidade no outro e assumir a minha. Mas assumir o que é meu, e só.

Pra ficar juntos, muitas vezes preferimos abrir mão de quem a gente era, o que sempre será um preço muito, muito alto. Mas quando percebemos que já entregamos demais do que somos, do que desejamos, e que o outro lado não deu o devido valor, parece que terminamos sem nada!!! Então é hora de recuperar nossos pedaços.

Recuperar quem a gente é de um oceano de coisas que ficam amontoadas... Da confusão emocional que se acumula e estoura no fim. Porque mesmo sabendo que não tem jeito de continuar, no fundo, a gente não queria que acabasse... Mas jogar fora, mandar embora tudo que sobrou de triste e negativo, é meu compromisso e declara meu respeito por mim mesma.

Não quero me vingar. Não quero atacar ninguém. Não é digno de meu entendimento da vida. E não preciso disso, que nada me acrescenta.

Quero cuidar de mim, cultivar meu jardim de harmonia e sentimentos bons. Bom humor. Não vou alimentar rancor, nem tristeza. Porque, no final, só temos o amor que sentimos, com seus sintomas e hematomas (como escreveu Leminski), e sem amor tudo pesa.


Ainda temos um caminho inteirinho pela frente.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

SOMAR SIM, COMPLETAR NÃO

Não posso ser parceiro ou parceira, se estou OK com machucar

Por Maya Wolf


Eu quero uma parceria de verdade, inteira. Com ou sem morar junto, com ou sem papel, aqui ou noutro lugar. Ainda não sei como vai ser porque, quando for pra saber, quero resolver junto.

Não me permito viver mentiras. Não apenas porque nas mentiras falta verdade, mas porque mentiras em geral machucam e maltratam as pessoas, quando descobertas. Não posso ser parceiro ou parceira, se estou OK com machucar.

Se não me importar.

Acho que as relações, incluindo as de casais, ficam muito vazias quando não existe verdade. E admiração e respeito mais amplos, pelo Ser Total do outro.

Numa parceria de alma, sentimentos cabem e sempre são considerados. Então quero antes alguém que eu respeite e admire, que me respeite e admire um tanto.

Porque se não tem pelo menos esses sentimentos, o que sobra são só momentos aqui e ali. Momentos legais, outros mais ou menos, outros ruins... Com o tempo, o que era companhia acaba virando tédio.

E tédio não combina com amor. Amor é pra gente se sentir meio adolescente, com vontade e sensação de novidade. De preferência, mantendo a mente adulta, pra se preservar de agir como adolescente, o que pode ser inconsequente e derrubar a gente.

Mas o fato é que mulheres e homens podem encarar isso de maneiras distintas. Mulheres maduras gostam mais facilmente de homens de várias idades, mas há homens que se encaixam na descrição do Mário Prata em “100 crônicas”: “Assim como os adolescentes, os envelhescentes também gostam de meninas de vinte anos.” Aqui, contudo, não tem parceria. Só ego e interesse.

Parceria é estar inteiro com o outro, conseguir conversar intimidades. Confiar e ganhar confiança. Quando algo não é dito, é como se faltasse pedaço da outra pessoa. E se isso fica subentendido, a gente sente o pedaço faltando, sem saber o que é e, portanto, sem saber como lidar. 
Ser parceiro não é se completar reciprocamente. Mas estar sinceramente disposto a somar.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

AMOR INTERNO

A tese do amor eterno torna todos que não encontraram o seu, tristes cartas fora do baralho

Por Maya Wolf



Acho um absurdo o auwê criado em torno dessas histórias de velhinhos que se conheceram na juventude e depois acabam se reencontrando e casando, na velhice.

Porque essas histórias despertam uma fantasia perigosa nas pessoas: a ideia de que amor eterno existe e de que aquilo é a prova. Prova de que há seres predestinados a se encontrarem para uma única possível felicidade a dois nesta vida, que só precisam de uma oportunidade pra viverem o êxtase da suprema ventura possível na Terra. Ou seja, que amor vem do outro.

E (claro!) em tragédias clássicas famosas, em nome de um amor desses, tudo pretensamente pode ser justificado. Crimes, traição, mentiras. Afinal, não é esta a própria razão da existência: encontrar o ser amado e a ele se unir para sempre??? O que há de impedir, então?...

Isso sempre pode poeticamente significar que o relacionamento vai durar tanto quanto nossas vidas. Mas na prática, quer dizer que podemos morrer antes do ser amado e da relação, o que nos tira da jogada e nada garante sobre o depois.

Apesar do sarcasmo, porém, acredito em relacionamentos duradouros. O que é diferente de amor eterno, no sentido mais romântico e passional dessa expressão de pessoas que encaram o amor como uma novela, peça de Shakespeare ou enredo de cinema que se pode viver na vida real. A tese do amor eterno torna todos que não encontraram o seu, tristes cartas fora do baralho.

Bem, penso diferente. Acredito em encontro e encanto em qualquer tempo. Parceria e relacionamento em qualquer idade. Outras relações não são desvios de uma jornada obrigatória, são vivências e crescimento. São oportunidades de viver bem e fazer bem a alguém especial. Afinal, o que se quer, não é um amor que nos faça bem?...

Em lugar de amor eterno, prefiro acreditar em amor interno, como ponto de sustentação. Como disse Jeanne Moreau, “a velhice não nos protege do amor; é o amor que até certo ponto nos protege da velhice”. Amar é muitas vezes apenas reconhecer o amor que já estava oculto em algum lugar dentro de você, pressionado pelo medo, assumindo a coragem de tentar algo novo com alguém que valha a pena. Que é novo, mesmo que se tenha um passado.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

ISTO NÃO É AMOR III: VAGA PARA PARCEIRO OFICIAL

Andar por aí vendo defeitos num homem, porque ele não é como você espera, é algo profundamente egoísta

Por Maya Wolf




Muitas mulheres têm andado por aí em busca do cara pra ocupar a vaga do parceiro oficial. Elas foram desenhando esse homem na sua mente durante muito tempo e, fora as qualidades almejadas, ainda esperam ser surpreendidas por algum grau excepcional de atenção e gentileza, alguma dose de romantismo e capacidade de ouvir muito, compreendendo-as sempre. Entre outras. Se for lindo, melhor ainda.

Nada demais em querer que a pessoa seja o que a gente quer. E não é raro querer muito. O difícil é colocar toda essa montanha de expectativas em cima de um homem e surgir um sujeito real, que não encaixa na moldura que se inventou, mas que é quem dá atenção, é o que se interessa por você, por seu jeito, sua conversa. É quem quer te levar pra sair e arruma um modo de te beijar. É o que mostra que quer se comprometer.

De duas, uma. Você pode ficar encantada com suas outras qualidades, mesmo não sendo aquelas que imaginava. Ou pode insistir na chatice de querer alguém do jeito que você quer, transformando a pessoa num alvo para sua deformação.

Isso, deformação. Na sua cabeça, você fica tentando enxergar aquilo que quer e se desgasta pra emoldurar a pessoa, pra se convencer de que ele é AQUILO QUE VOCÊ QUER.

E caso você case com ele, vão se desentender, ele vai insistir em não caber na moldura, de jeito algum. Você sonhou com um cara caseiro, que conserta as coisas. Mas ele deixa tudo lá pra jogar bola com os amigos. Você sonhou que estariam juntos, todas as noites, mas ele resolve voltar pra faculdade e ainda passa os finais de semana estudando.

É preciso parar de enxergar a moldura e ver a pessoa. Esquecer aquela coisa de música do Kid Abelha dos anos ’80: “O que você precisa é de um retoque total, vou transformar o seu rascunho em arte final.” Isso fica bonitinho na canção, mas detona a relação.


Andar por aí vendo defeitos num homem, porque ele não é como você espera, é algo profundamente egoísta. Isto não é amor. Querer fazer ele ser do seu jeito, não é amor.

Além disso, provavelmente, ele também descobriu que você é muito mandona, ou que não cozinha como a mãe dele. Talvez ele esteja buscando aprender a viver com isso, porque acha mais importante estar ao seu lado que cultivar uma ilusão...