segunda-feira, 8 de setembro de 2014

AMOR INTERNO

A tese do amor eterno torna todos que não encontraram o seu, tristes cartas fora do baralho

Por Maya Wolf



Acho um absurdo o auwê criado em torno dessas histórias de velhinhos que se conheceram na juventude e depois acabam se reencontrando e casando, na velhice.

Porque essas histórias despertam uma fantasia perigosa nas pessoas: a ideia de que amor eterno existe e de que aquilo é a prova. Prova de que há seres predestinados a se encontrarem para uma única possível felicidade a dois nesta vida, que só precisam de uma oportunidade pra viverem o êxtase da suprema ventura possível na Terra. Ou seja, que amor vem do outro.

E (claro!) em tragédias clássicas famosas, em nome de um amor desses, tudo pretensamente pode ser justificado. Crimes, traição, mentiras. Afinal, não é esta a própria razão da existência: encontrar o ser amado e a ele se unir para sempre??? O que há de impedir, então?...

Isso sempre pode poeticamente significar que o relacionamento vai durar tanto quanto nossas vidas. Mas na prática, quer dizer que podemos morrer antes do ser amado e da relação, o que nos tira da jogada e nada garante sobre o depois.

Apesar do sarcasmo, porém, acredito em relacionamentos duradouros. O que é diferente de amor eterno, no sentido mais romântico e passional dessa expressão de pessoas que encaram o amor como uma novela, peça de Shakespeare ou enredo de cinema que se pode viver na vida real. A tese do amor eterno torna todos que não encontraram o seu, tristes cartas fora do baralho.

Bem, penso diferente. Acredito em encontro e encanto em qualquer tempo. Parceria e relacionamento em qualquer idade. Outras relações não são desvios de uma jornada obrigatória, são vivências e crescimento. São oportunidades de viver bem e fazer bem a alguém especial. Afinal, o que se quer, não é um amor que nos faça bem?...

Em lugar de amor eterno, prefiro acreditar em amor interno, como ponto de sustentação. Como disse Jeanne Moreau, “a velhice não nos protege do amor; é o amor que até certo ponto nos protege da velhice”. Amar é muitas vezes apenas reconhecer o amor que já estava oculto em algum lugar dentro de você, pressionado pelo medo, assumindo a coragem de tentar algo novo com alguém que valha a pena. Que é novo, mesmo que se tenha um passado.

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