segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

QUANDO CALA O SENTIMENTO E FALA O DIREITO

Assim que se cansarem, o ser real dos dois vai se mostrar

Por Maya Wolf



As pessoas ficam gentis e flexíveis, quando estão num relacionamento de que gostam. Criam ocasiões de estarem bem juntas, fazem coisas que consideram agradáveis, falam de sonhos e de histórias que são ouvidas com atenção e doçura, expressam isso em público.


Até que o relacionamento azede. Pelo tédio, pelo descuido. Pelo desamor. Pelas intromissões alheias. E quando isso acontece, um sinal muito nítido vai surgindo: as pessoas falam cada vez menos em sentimentos e cada vez mais em direitos.


Aonde podem ir e quando, com quem podem ou não podem estar, sobre o que podem resolver sem consultar o outro...


Até que o relacionamento termine e só reste falar sobre o que fica com um e com o outro. Enfim, até que só reste defender os próprios direitos.


A frieza, a dureza dessas decisões, algumas vezes, assusta. Então, eu pergunto: que sentimento era aquele, afinal? Aquela melação toda, o que significava???


Eu não duvido do amor, pelo contrário, tenho uma alta esperança e fé irrestrita nos bons sentimentos humanos. Mas, que fim levou o amor? “Plantei um pé de flor, deu capim”, responde Djavan.

Se olharmos para outro momento, aquele que vem antes do relacionamento, podemos ter uma pista do que acontece. Como as pessoas estão quando olham pra alguém, querendo namorar? Não raro, carentes. Com saudade de uma boa transa – não dessas que se acha em qualquer lugar. Querendo companhia pra sair, apoio emocional, cumplicidade.


Estão dispostas a fazer dar certo. Sem conhecer bem o terreno novo, vão pisando e aceitando condições, pisando e acreditando, pisando e tentando semear impressões positivas.


Na bobeira de querer estar com alguém, é fácil se confundir e achar que o interessado está seguindo o coração, até porque formatos de coração chegam em postagens e junto com presentes. Só que nada disso é necessariamente sentimento. É busca de preencher um vazio.


O sentimento pode até surgir depois, se o interesse virar uma conversa, se a conversa trouxer satisfação, se houver química e vontade de investir. Mas se não surgir, assim que se cansarem, o ser real dos dois irá se mostrando: o egoísmo, a falta de caráter e o nível de agressividade. (E é onde você descobre quem é possível de se relacionar e quem não é – ironicamente, quando a coisa já está degringolando.)

De qualquer maneira, não sofra por rejeição. Não é você. É só uma ideia de relacionamento que já deu o que tinha que dar. Ninguém é obrigado a comer o capim que plantou por engano. Mas precisa, sim, manter o mínimo de respeito.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

NÃO SE DEIXE PRA DEPOIS

Como a pessoa ao seu lado encara a sua vida pessoal, profissional, familiar?

Por Maya Wolf




Às vezes, você imita o estilo de alguém. Às vezes, uma cultura ou tendência que admira. “Hippie chic”, “afro”, “motoclube”. Ou embarca num modismo.

Mas tem sempre algo mais que você representa no mundo. A sua alegria, o seu trabalho, o seu respeito por si e pelos outros. Sem alarde, sem atitudes panfletárias, somente a marca que você deixa em tudo o que faz e nos locais por onde passa.

Tem um ser aí, com uma função perante si mesma, perante família, sociedade. Viver e aprender com a vida, pra sofrer menos e ter mais paz, faz parte dessa função. Cuidar de pessoas queridas. Tornar melhor um pouco, o seu lugar. Atingir um grau satisfatório de felicidade.

Às vezes, porém, você se desvia disso. Se concentra num só aspecto de sua ampla possibilidade de pensar e de fazer. Foca no trabalho, na carreira. E assim perde a mulher, a filha e a mãe dentro de você. Deixa o resto para um futuro distante ou, talvez, inexistente.

Ou então, tudo gira em torno de buscar alguém. Quando finalmente acha, tudo passa a girar em torno de estar com esse alguém. Você para de se ver e começa a se projetar no parceiro.

Não que o relacionamento não possa ser nutritivo e satisfatório. Mas vai fazer o quê, enquanto estão juntos? Crescer profissionalmente? Apoiar o crescimento do outro? Dedicar-se a filhos? Mudar de casa? Mudar de país?

Às vezes, você estaciona numa situação. Acha que algo está ótimo enquanto está rolando e deixa rolar. Mas acaba pagando um preço – descobre que sua vida parou ali ou que foi pra uma direção que não queria. Experiências diversas são assim, desde o porre e a ressaca, até o tempo que você demora (devora) na rede social sem perceber e, mais tarde, quase se mata pra cumprir a agenda.


Não empurre essas questões com a barriga, porque o futuro não é feito amanhã, ele é plantado hoje. Faça escolhas conscientes.

Boas perguntas, pra fazer a si mesma, são: Como a pessoa ao seu lado encara a sua vida pessoal, profissional, familiar? Como ela trata seus amigos e amigas? Ela se interessa em ajudar você ou só pensa em si própria?

No começo de um namoro, o carinho e o afeto nascem na descoberta das afinidades. Mas o relacionamento só se fortalece quando as diferenças, sonhos e pensamentos do parceiro são importantes e respeitados.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

DAR OU NÃO DAR NO PRIMEIRO ENCONTRO?

Essa pergunta não tem a ver só com parecer “facinha”

Por Maya Wolf





As pessoas tendem a se viciar nas situações que trazem sensação de segurança. Usam palavras a que se acostumaram e que, segundo creem, não serão mal interpretadas. Passam pelas mesmas ruas pra chegar ao trabalho ou ao mercado. E se casam para garantir um futuro.

Casar dá sensação de segurança, igual a emprego. Cria-se um hábito de ficar junto, de trabalhar num lugar – tanto no emprego, quanto no casamento. Ambos um dia podem dançar.

Casamento geralmente parece melhor visto de fora do que vivido por dentro. Você vê duas pessoas numa longa convivência e acha que aquilo é felicidade. Contudo, algumas vezes, se olhar de mais perto, vê apenas dois neuróticos cujas neuroses se completam.

Compartilham uma relação que vem sendo segura para suas necessidades emocionais. Cômoda, talvez confortável. Mas, feliz? Intensa? Carinhosa?... Não.

Então, os casais se separam quando se dão conta de que o doce amargou. Ou ficam ali e fazem cena pros outros (não subestime jamais a fragilidade dos egos envolvidos!).

Apesar disso, a idealização do casamento ainda coloca na cabeça de muitas mulheres a mesma pergunta: “dar ou não dar, no primeiro encontro”?


Essa pergunta não tem a ver só com parecer “facinha”, o que já vem de uma mentalidade machista, mas com querer fisgar um homem. É estratégica. Ela é fruto de uma cultura em que o macho “alfa” pegador é valorizado, enquanto que a mulher que ele pega ganha o desvalor e a pecha de “piranha”. Fica desvalorizada para casar, que fique claro.

As mulheres deviam desenvolver um olhar próprio, para si mesmas, em vez de se olhar como os homens as olham.

Primeiro, que a gente não dá. No máximo, empresta.

Segundo que, se é minha, empresto quando e pra quem quiser. Não estou fazendo tipo, estou apenas no meu direito.

Falo com a minha boca aquilo que quero, caminho com meus pés para onde decido ir. Então, por que alguém, que não eu, deveria gerenciar a minha vida sexual?

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

SEX TOYS

Brincar é saudável e humano, mas só quando ambos sabem que é brincadeira

Por Maya Wolf



Os homens em geral são crianças que gostam de ter seus brinquedos ao alcance das mãos. Gostam da ideia de que podem esticar o braço e pegar o que querem. E gostam de colecionar.

É bom saber que alguns deles amadureceram o suficiente pra controlar esse impulso ou pra não ter que provar que são homens, colecionando transas e conquistas.

Porque brincar é saudável e humano, mas só quando ambos sabem que é brincadeira.

Você devia ter parado de buscar fantasias adolescentes por aí, se quisesse ficar comigo. Porque eu não devo (perante mim mesma!) alimentar esse seu lado inseguro, fazendo concessões e esperando que você me dê uma qualidade melhor de atenção e carinho. Não vou mendigar afeto.

EU não estava brincando. Tive o capricho de desejar um futuro e planejar como seria. Abrir mão desse desejo e plano demorou um pouco. Por um tempo, achei que tinha perdido, mas agora penso que ganhei algo, nisso tudo. Você deixou uma bagunça aqui, mas essa bagunça não sou eu. Você saiu como um moleque irresponsável e isso criou uma crise que, como dizem na China, é também uma oportunidade. E eu estou inteira.

Não vou me sentir “menos”, nem insegura, nem inferior, nem desamada. Você é que não sabia o que era amor.

Eu comecei chorando e sentindo muita raiva, mas tudo isso me mostrou a força que tinha e não estava usando, por ter me acomodado na sua companhia. Era agradável ter você ao lado.

Você, contudo, não entendeu os termos e abusou de sua posição. Então, chega uma hora que chega! E pra mim chegou o tempo de achar outro rumo, conhecer outro lugar, encontrar um homem-homem.

Quanto a você, bobão, desejo que se divirta na sua eterna sex shop, até cansar de se masturbar no banheiro da puberdade emocional e saber querer uma mulher por inteiro. Uma que não vai ser só seu fetiche e nem a sua distração!

Não tenho medo de estar só. Eu até ando sentindo falta de estar com alguém, mas não dá pra ser qualquer pessoa. Sobretudo, se for outro você. Então, estou num exercício de paciência e, segundo Benjamin Franklin no Poor Richard's almanack de junho de 1736, quem pode ter paciência pode ter o que quiser.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

MAIS BRECHÓS E MENOS SHOPPINGS

Não sou massa, nem ovelha de rebanho

Por Maya Wolf



Para mim, shoppings são lugares entediantes. Brechós são lugares de diversão e descobertas, de experimentos instigantes. Lá encontro peças surpreendentes, enfeites de outras décadas, coisas geniais.

Vitrines de shoppings são geralmente várias da mesma tendência de moda. Não quero moda. Eu quero passar numa loja de DVD’s, por exemplo, e, se possível, ver e ouvir ThePianoGuys. Pode ser?...

Eu quero conceitos alternativos pra vestir.

Muitas mulheres de hoje parecem xerox umas das outras. Cabelos alisados, peitos arrebitados, estampas semelhantes. E o interessante é que elas se parecem mais com cópias do gosto masculino que com elas mesmas. Isso é muito chato! Perderam a clara expressão de si para se tornarem iscas de olhares que, delas, pouco veem. Anyway...

Não adoto este padrão. Isso não quer dizer que eu tenha que (ou que vá me) embarangar toda, só pra ser do contra. Não vamos radicalizar, que a proposta não é esta! Nos brechós, viajo para diversos passados e para alguns futuros looks meus. Imagino, componho, crio.

Quero me vestir como me gosto, de um jeito que o espelho me sorria. Pra mim mesma, não pros outros. Quero mudar conforme meu estado emocional, minha inspiração, minhas combinações de cores.

Não sou massa, nem ovelha de rebanho.

Gosto da diversidade humana, ela me amplia e enriquece. Gosto da semelhança essencial que nos une espiritualmente, mas gosto demais da liberdade de escolher como pensar e como ser.

Não creio que vá mudar o capitalismo e a globalização, com essa minha pequena postagem. Mas se você pensar a respeito, já me dou por muito contente!

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

ETERNOS FILHINHOS DE MAMÃE

Eles crescem com uma cabeça dirigida pra serem os machinhos e acabam não sendo homens inteiros

Por Maya Wolf


Andando por aí, tenho observado uma alta incidência de homens separados que voltaram a morar nas casas de suas mães. E não estou falando de homens de 19 anos, mas de 30 a 40, que já fizeram filhos lá fora, têm uma profissão e, geralmente, uma formação. Quando a casa do relacionamento desaba, eles retornam ao lugar de onde um dia saíram orgulhosamente para fazer suas vidas próprias.

Conversei com duas amigas sobre isso.

– Por que vocês acham que isso acontece? – perguntei.

– Roupa lavada, comidinha pronta, grana sobrando pra balada... É a lei do menor esforço, mais imaturidade... falta de cojones pra bancar a própria vida. – foi uma das respostas.

A outra foi que:

– A culpa é das mães, que criam as filhas pra casar e serem boas donas-de-casa, mas criam os filhos pra serem sempre filhos. O homem cresce e quer ter uma mulher pra comer e uma mãe pra fazer comida. Quando não dá mais pra comer a mulher, volta pra comida da mãe...

– E já chega dando ordem, viu, bem.....?! – completou a primeira.

Eis o que eu acho: penso que o que mais faz falta pra eles, que experimentaram a casa da mãe e a vida de casados, é saber fazer a coisa funcionar. As mulheres sabem, melhor que eles, como criar um lar, um lugar organizado e acolhedor com tudo o que eles precisam pra sobreviver. (Sim, sobreviver!)

Eles crescem com uma cabeça dirigida pra serem os machinhos e acabam não sendo homens inteiros. As famílias ficam com bobagens de “isso coisa é de homem”, “aquilo é de mulher”. Depois, eles não sabem se virar e voltam correndo pras mães.

Se soubessem mais sobre Donald W. Winnicott e sua teoria do cuidado materno, será que isso ajudaria essas mães a criar condições de autonomia para os seus meninos? Segundo ele, toda criança precisa de uma mãe suficientemente boa, que vá saindo de cena e deixando a criança virar um ser inteiro, maduro. Não, esses “garotos grandes”, que a gente vê por aí e acaba casando com eles...

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O MELHOR RELACIONAMENTO

Haja inteligência, bom humor, criatividade e disponibilidade interna para seguir juntos

Por Maya Wolf



A busca da fórmula infalível do bom relacionamento já rendeu muitos livros, crônicas e frases.

Falando de frases, gosto desta: “O melhor relacionamento não é aquele que une pessoas perfeitas. Mas aquele em que cada um aprende a conviver com os defeitos do outro e admirar as qualidades.”

Ela se encaixa perfeitamente em outra com que concordo, do consultor de empresas Stephen Kanitz em seu artigo “O contrato de casamento”: “O objetivo do casamento não é escolher o melhor par possível mundo afora, mas construir o melhor relacionamento possível com quem você prometeu amar para sempre.”

Ambas são frases “pé no chão”, realistas, diferentes do romantismo delirante de certas mentes imaturas emocionalmente, que contam somente com o amor como substância cola-pessoas.

Mas a minha frase predileta, não só por ser minha, mas também por ser a que traz maior conteúdo de vontade e decisão é: O melhor relacionamento é aquele que ambos realmente querem e o resto se resolve pelo caminho!

Essa frase traz dentro dela a ideia de que amar uma pessoa e querer um relacionamento são coisas diferentes. São, até certo ponto, ideias contraditórias.

Um relacionamento (não só um casamento) é um tipo de contrato e contrato é um acordo de vontades. Acordos e contratos prendem as partes a regras, enquanto o amor libera, amplia, transborda e não se submete.

O sentimento e a emoção têm seu papel. Contudo, eles variam em intensidade no dia-a-dia, que traz seus desafios e suas questões, que nos encontra em diferentes condições psicológicas e emocionais. Haja determinação, inteligência, bom humor, criatividade e disponibilidade interna para seguir juntos mantendo a relação saudável, visto que o próprio amor também pode adoecer perante a rotina, a dificuldade financeira, a enfermidade, a imaginação patológica e o cansaço.

A vontade, por sua vez, decide até mesmo à revelia do sentimento – não que seja o caso...

Relacionamentos duradouros, isso já deve estar claro, também não se baseiam em paixão ou loucura, nem em atração sexual. Nem mesmo nesse amor que cada um que declara entende de um jeito. Mas principalmente em decisão e vontade, em valores como respeito, parceria, lealdade e confiança. Sobretudo, relacionamentos duradouros são baseados em vontade firme de se envolver e de se comprometer.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

EU ME CURTO

A vida privada não é um exílio. É uma necessidade

Por Maya Wolf



Essa superexposição da vida nas redes sociais está criando umas situações e exigências ridiculamente impossíveis. Rir constantemente. Fazer coisas publicáveis. Estar sempre preparado para uma selfie.

A busca pelas “curtidas” faz querer escrever coisas sempre boas, bacanas, descoladas. Com o tempo, podemos nos tornar dependentes disso. Estar bem, sentir-se feliz ou abençoada, vai virando uma imposição e parece que ficar triste, chateada, experimentar rejeição, são coisas pra realmente se esconder e vivenciar na solidão da vida offline.

Claro que é o ego que pensa assim. (Como todo tipo de dependência, esta também atende diretamente ao ego...) É o ego que precisa de curtidas. 


E claro que é bacana receber um presente, passar a tarde com o namorado ou amigos, na praia. Ir jantar num lugar bonito.

Mas, e quem está cansada de carregar dentro de si um estado emocional incômodo e pesado, memórias sobrevoando a mente e pousando como desagradáveis pernilongos que não dão sossego, resolve como? Expõe onde?

Se estiver brava, triste ou envergonhada pelo que sente, pode t
er vontade de se recolher. De não se expor. Uai, há coisas dignas de serem sentidas e que não são feitas pra se postar!

A vida privada não é um exílio. É uma necessidade e um sintoma de saúde, quando se consegue ficar confortável na companhia de si mesma. Retirar-se pra colocar a cabeça no lugar, uma medida de equilíbrio.

A ideia de que a gente precisa estar sempre feliz, a fim de dizer coisas boas pros outros, sempre satisfeita e grata por tudo, é um mito. Um mito que essa vida virtual vem reforçando, até porque ela dá uma impressão de sermos outra pessoa e vivermos outra realidade. Sobretudo quando é difícil aceitar uma realidade “real” que é muito diferente da que se deseja...

As pessoas não são feitas apenas do que se permitem expor nas fotos e posts. As pessoas são compostas de camadas que aparecem sempre, camadas que vez por outra dão as caras e, outras camadas ainda, que nunca vemos. E nem sabemos as razões.

Algumas pessoas, com tudo isso, inspiram simpatia e confiança. Outras, estranhamento.

Algumas se tornam próximas e confiáveis, por motivos que não conseguimos identificar. Mas uma coisa eu aprendi: que a mais próxima e mais confiável de todas precisa ser sempre a gente mesma.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

RADIOGRAFIA

Você estará em meio à energia que semeia ao seu redor

Por Maya Wolf



As melhores lembranças são sempre as que mais doem. E doem porque estou machucada, se não, me acalmariam e alegrariam. Ainda estou meio esfolada do namoro que terminei e é visível, isso.

Mas estou aqui tentando diagnosticar o seu caso, não o meu. Você diz coisas bacanas, mas age como um cretino. Tenho opções:

1) Você age como se não tivesse sentimentos. Quem tem sentimentos, não pode agir como você. Logo, você é um insensível.

2) A alternativa é que você seja um moleque, um inconsequente. Que você não tenha ideia de como sua falta de honestidade pode doer nas pessoas e ache que tudo é uma brincadeira.

3) Ou então, encontrou alguma boa desculpa pra fazer o que faz. Há montanhas de desculpas que as pessoas dão pra si mesmas, pra fazer o que querem e não o que é o mais correto. Pensam que isso não vai machucar, mas sempre alguém se machuca, de algum jeito.

E quem agiu dessa forma com o outro se machuca também. Tem perdas. Tem um caminho pra refazer... Já notou? A menos que seja, mesmo, o caso da Opção 1 e não ligue a mínima... Ou um simples 4:

4) Você é um sádico, que se diverte com o sofrimento dos outros.

Mas, apesar de tudo, pensando amplamente, não quero ter nada mais com isso e fico com Lou Reed em “Perfect day”: “Você vai colher aquilo que semear...
” Não por algum tipo de punição divina, em que não acredito e, sim, porque as pessoas leais e verdadeiras vão querer ficar longe de você. E você estará em meio à energia que semeia ao seu redor. 

Eu estarei com a energia que eu semeio. Cada um com a sua, daqui pra frente.

A vida tem um jeito de juntar pessoas que têm a ver, eu é que andei discordando dela, achando que você tinha a ver. Fui idiota, deixei a sua brincadeira, desonestidade e/ou crueldade, irem longe demais. Foi um momento de fraqueza ou de carência, mas isso também passa.

Já estou sarando, enquanto escrevo isto. E você?

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

DIZER NÃO

Tem coisas de que podemos gostar e que nos fazem mal, como os cigarros e certos relacionamentos

Por Maya Wolf

Esperando o sono chegar, passando pelo Facebook, li a frase atribuída a Osho: “Se não tiver a capacidade de dizer não, seu sim não significa nada.”

Tem gente que encontra muita dificuldade em dizer não. Acaba sendo alvo de pessoas abusadas, fica chateada e se sente mal, mas dizer aquela palavrinha de três letras permanece uma impossibilidade.

Claro que isso tende a criar situações ruins. Veja só, algumas mulheres. Por que elas fazem isso? Porque acham que se derem tudo, fizerem tudo e aceitarem tudo, irão tê-los por perto pra sempre.

As muito dedicadas tendem a ficar com homens que se encostam, dizia uma amiga, semana passada. Olhando de fora, não parece óbvio?...

Mas se considerassem tudo o que deixam de fazer e de viver, as coisas com que acabam concordando, as situações a que se submetem, veriam que foi uma troca bem ruim. Veriam que, se se dedicassem menos ao encosto e mais a si mesmas, sua vida caminharia muito melhor.

Por isso, eu parto do princípio de que “dizer não” é uma atitude que não tem nada a ver com o outro. Tem a ver com a gente mesma, porque quando digo sim querendo dizer não pro outro, ao mesmo tempo nego algo a mim mesma. Nego meu direito e minha dignidade de pessoa. Nego a minha voz.

(Às vezes, vamos dizer não para nós mesmas, só que por boas razões. Tem coisas de que podemos gostar e que, não obstante, nos fazem mal, como os cigarros e certos relacionamentos...)

“Dizer não” tem a ver com o que eu admito e não admito, com o que valorizo e tenho como ideais de vida, tem a ver com a pessoa que sou ou quero ser.

Se eu pensar bem, pra mim o que importa é integridade. Palavra. Respeito às pessoas, ao Planeta. Pra mim, importante são essas coisas, sabe? Quando a gente define isso, começa a entender emprego que serve e não serve, relação que funciona e não funciona, namoro que tem futuro ou não...

E pode também começar a treinar umas frases. “Não gostei do que você fez.” “Não vai dar pra te ajudar nisso.

Seja mais você e menos boba. E que a falta de sono em nossas madrugadas seja sempre diversão, poesia e devaneio, jamais insônia ou arrependimento...

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

MINHAS LIBERDADES E MINHAS GRADES

Apenas percebo que minhas mãos se movem na sua direção

Por Maya Wolf




Aquilo em que eu acredito, é minha liberdade ou as minhas grades.

Um exemplo: Estive muitos anos trancada num casamento difícil. Eu vivia um monte de coisas dentro da minha cabeça, porque era extremamente controlada pelos ciúmes de um ex-marido e achava que estava fazendo algo bom, mantendo a minha família unida. Eu acreditava na importância de aguentar firme no meu papel e vivia tudo (minha liberdade, meus devaneios, meus pensamentos mais pessoais e criativos) dentro da minha mente.

No fundo, estava presa era naquela minha crença, de que aquilo pelo que estava me sacrificando tinha algum valor. Não, no meu casamento.

Então, parei de crer naquilo e saí, quando descobri que não funcionava, que nada estava melhor em função do meu “sacrifício”.


Fiquei doente, foi uma “barra”, mas eu saí. E então entendi Bukowski em Ao sul de lugar nenhum: “quanto menos se acreditava na vida, menos se tinha a perder”. Vi o que estava perdendo e que também moram em mim seres que desconheço.

É fato e eu reconheço essas forças desconhecidas ou inconscientes. Instinto. Emoção.

Tem algo que não sei explicar quando estou perto de você e sinto vontade de tocar em você. Se não houver obstáculo, é o que eu faço. Não penso, não discuto. Apenas percebo que minhas mãos se movem na sua direção. Meu corpo vai pro seu. Minha boca vai pra sua...

Não sei se sou totalmente controlada por essas forças. Talvez, sejam mais implacáveis dentro de mim que o antigo ciúme alheio, porque nelas, não preciso crer pra que ajam.

Espero que, se eu sentir que não é o momento ou que não devo, a minha vontade vá funcionar e eu me refreie. Se tiver alguma razão suficientemente forte e importante, eis a minha força pra não agir por impulso.

Quando ficar em dúvida sobre essas forças desconhecidas, darei uma chance ao tempo. Ele tem um jeito maravilhoso de mostrar o que funciona e aprendi isso com um casamento que parou de funcionar.

Pena que a gente, às vezes, também demore demais pra (ou não queira) acreditar no que ele diz, o que costuma revelar-se uma enorme burrice.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

BLINDADOS SÃO LUGARES FECHADOS E OPRESSIVOS

Levanto o estandarte da liberdade de ser e de querer 

Por Maya Wolf


Tive uma fase em que sonhava para mim um monte de coisas. Sonhava uma história bonita, como as de casais amigos meus que estão juntos por longo tempo. Não diante dos homens ou da lei, mas primeiramente de si mesmos.

O fato, porém, é que não se sabe ao certo a que custo essas uniões persistem e se eu teria como bancar algo assim. Sempre me pareceu possível. Mas tropecei no caminho e caí das minhas projeções. Então perdi essa visão bonita, de possibilidades, e prefiro ficar com o que está acontecendo a cada momento, mesmo ao me relacionar.

A liberdade de ser quem somos e fazer o que nos faz bem, essa liberdade é algo muito precioso e ninguém devia achar-se no direito de tirá-la. Mas alguns relacionamentos sobrevivem porque alguém abriu mão da sua, submetendo-se aos caprichos, implicâncias e até loucuras de algum outro.

Eis porque levanto o estandarte da liberdade de ser e de querer, na medida em que não coloque o próximo em risco e que se assuma a responsabilidade pelas escolhas.

Por isso, repudio a ideia de “casamentos blindados”. Blindados são tanques, são carros-fortes. São lugares fechados e opressivos. Podem até ser Limusines, mas com terror de assaltos e atentados. Se a manutenção do casamento ficou mais importante que a sobrevivência do amor e da lealdade, enquanto sentimentos naturais e espontâneos, será que vale a pena ser casado?...

Quero encontrar uma pessoa entre tantas, um ser comum. Ele certamente começará me mostrando o seu melhor, mas, se continuarmos juntos, algum dia, estarei também cara a cara com o seu pior. E ele com o meu. Quero então saber como vou reagir, pois não posso garantir. Se não desistirmos de nós, vamos dar um jeito de seguir lado a lado.

Todo o viver sempre envolve certo risco. E lidar bem com isso é um tipo de crescimento emocional. No fundo, penso como Milan Kundera escreveu em A insustentável leveza do ser. “O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma série inumerável de pessoas), mas pelo desejo do sono compartilhado (este desejo diz respeito a uma só pessoa). Algumas pessoas com quem dormimos nos permitem viver isso. Dormir com alguém ao lado pode ser uma experiência muito mais profunda do que sexo em si. Mas não é uma experiência que se pode ter com qualquer um...”

Acordar juntos é um exercício diário e, enquanto olhar para o meu parceiro e sorrir, enquanto ele sorrir para mim um “bom-dia” carinhoso, juntos estaremos.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

UNS AMAM, OUTROS PASSAM

Vamos ser honestos, pra eu não inventar na minha cabeça coisas que não são

Por Maya Wolf



Sabe, eu realmente ando com pé atrás. Confesso. Não faço coleção de homens, busco outro tipo de coisa na vida. Mas sei que muitos homens gostam de colecionar mulheres que já pegaram e isso me magoa, porque é um desrespeito a mim e às mulheres.

Não estou falando de alguém em particular, que pode estar lendo e achando que é sobre ele.

Às vezes, gostamos de uma pessoa, gostamos mesmo, mas sabemos pouco sobre ela. Se tudo está muito rápido, fica difícil de aprofundar qualquer coisa. Embarcamos antes de saber pra onde o barco vai.

E olha que o amor e o encontro não precisam ser nenhum Oceano Pacífico! Mas só superfície – conversinha e carinha bonita – é muito pouco.

Vamos ser honestos, pra eu não inventar na minha cabeça coisas que não são. Isso é só uma saída? Uns beijos e uma transa? Preciso saber se o que você quer vai ser bom pra mim e se vou segurar a onda, caso não o veja mais.

Gosto da primeira impressão e de sua conversa. Acho que tudo pode, dentro da concordância, do respeito recíproco. E da honestidade recíproca. Porque posso estar olhando para o que eu acho que quero, vendo isso em você. E então, não estou vendo você. E nem eu mesma... o que é trágico!

E sem ver você, você pode roubar meu coração. Isso de roubar coração é perigoso. Quando a gente pega de volta, falta um pedaço e até crescer de novo... vou te falar!


Aprendi isso com uma sábia, a Alice Ruiz: “Era uma vez, uma mulher que via um futuro grandioso para cada homem que a tocava. Um dia ela se tocou.” Acho que sabedoria é aquilo que a vida vai deixando em nós, quando permitimos e damos valor. E essa sabedoria é que me salva de acidentes náuticos e fraturas expostas, quando você me responde se está só de passagem ou se pretende ficar.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

VOLTAR A SAIR

Não é boa ideia continuar pensando e agindo em função de um "ex" e de um relacionamento que terminou 


Por Maya Wolf



“Antes só que mal acompanhada” é um ditado que nem sempre convence quem acabou de terminar uma relação. Quando se está ressentida, um dos efeitos desse ressentimento é não querer ficar mal sozinha.

Quando se está ressentida com um ex-namorado, é comum querer ficar bem e, como a coisa não está interiormente resolvida, querer se sentir melhor usando as oportunidades possíveis para atacá-lo de formas diretas ou indiretas.

Postar selfies sorridentes ao lado de bonitões no Face, contando com que ele veja ou os amigos mostrem pra ele, é uma forma indireta. Entrar na sua casa e picar suas roupas (atenção: ambos são crimes perante o Código Penal Brasileiro!) é um exemplo de forma direta.

Mas nunca será boa ideia continuar pensando e agindo em função de um "ex" e de um relacionamento que terminou. Abrir mão do passado é saudável e não nos diminui, basta percebermos que não vale a pena nos apegarmos a uma história que faliu.

O mais difícil, contudo, é lidar com as emoções: a raiva, a tristeza. Dar a si mesma o direito ser “emotiva” é bacana, mas pede algum autodomínio. É comum reagir sem medir o real significado e as consequências.

E também é comum não ver o que está por trás: o orgulho ferido e o ressentimento, de que é importante se libertar.

Portanto, pare de procurar pessoas novas pelas razões erradas. Porque, no final das contas, podemos nos envolver e acabar com alguém que não tem nada a ver conosco. Outro equívoco de que podemos nos arrepender.

Um novo relacionamento precisa acontecer quando nos sentimos prontas pra ele, não para superar o outro, que não deu certo. Isso tende a virar um círculo vicioso de infelicidades, cuja causa nem sempre percebemos. E se não percebeu ainda, comece a prestar atenção.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

PERDER PESO

Histórias que não acabam bem deixam seus resíduos

Por Maya Wolf




Ando carregando coisas demais. Acho que é hora de soltar algum peso extra. No mínimo, facilita a caminhada. Sobretudo, porque ainda penso em ir muito longe.

Quero caminhar novamente. Seguir inteira, sem me sabotar. Ser um pedaço significa jamais se entregar, jamais mergulhar. Fica chato. Vou com tudo, mas preciso de mim, na mesma medida em que preciso jogar fora aquilo que me enrosca num passado que entristece. Deixar lá o que é de lá.

As histórias que não acabam bem deixam seus resíduos. O ego pode ser implacável e é a primeira grande tralha a abandonar: deixar de jogar toda a responsabilidade no outro e assumir a minha. Mas assumir o que é meu, e só.

Pra ficar juntos, muitas vezes preferimos abrir mão de quem a gente era, o que sempre será um preço muito, muito alto. Mas quando percebemos que já entregamos demais do que somos, do que desejamos, e que o outro lado não deu o devido valor, parece que terminamos sem nada!!! Então é hora de recuperar nossos pedaços.

Recuperar quem a gente é de um oceano de coisas que ficam amontoadas... Da confusão emocional que se acumula e estoura no fim. Porque mesmo sabendo que não tem jeito de continuar, no fundo, a gente não queria que acabasse... Mas jogar fora, mandar embora tudo que sobrou de triste e negativo, é meu compromisso e declara meu respeito por mim mesma.

Não quero me vingar. Não quero atacar ninguém. Não é digno de meu entendimento da vida. E não preciso disso, que nada me acrescenta.

Quero cuidar de mim, cultivar meu jardim de harmonia e sentimentos bons. Bom humor. Não vou alimentar rancor, nem tristeza. Porque, no final, só temos o amor que sentimos, com seus sintomas e hematomas (como escreveu Leminski), e sem amor tudo pesa.


Ainda temos um caminho inteirinho pela frente.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

SOMAR SIM, COMPLETAR NÃO

Não posso ser parceiro ou parceira, se estou OK com machucar

Por Maya Wolf


Eu quero uma parceria de verdade, inteira. Com ou sem morar junto, com ou sem papel, aqui ou noutro lugar. Ainda não sei como vai ser porque, quando for pra saber, quero resolver junto.

Não me permito viver mentiras. Não apenas porque nas mentiras falta verdade, mas porque mentiras em geral machucam e maltratam as pessoas, quando descobertas. Não posso ser parceiro ou parceira, se estou OK com machucar.

Se não me importar.

Acho que as relações, incluindo as de casais, ficam muito vazias quando não existe verdade. E admiração e respeito mais amplos, pelo Ser Total do outro.

Numa parceria de alma, sentimentos cabem e sempre são considerados. Então quero antes alguém que eu respeite e admire, que me respeite e admire um tanto.

Porque se não tem pelo menos esses sentimentos, o que sobra são só momentos aqui e ali. Momentos legais, outros mais ou menos, outros ruins... Com o tempo, o que era companhia acaba virando tédio.

E tédio não combina com amor. Amor é pra gente se sentir meio adolescente, com vontade e sensação de novidade. De preferência, mantendo a mente adulta, pra se preservar de agir como adolescente, o que pode ser inconsequente e derrubar a gente.

Mas o fato é que mulheres e homens podem encarar isso de maneiras distintas. Mulheres maduras gostam mais facilmente de homens de várias idades, mas há homens que se encaixam na descrição do Mário Prata em “100 crônicas”: “Assim como os adolescentes, os envelhescentes também gostam de meninas de vinte anos.” Aqui, contudo, não tem parceria. Só ego e interesse.

Parceria é estar inteiro com o outro, conseguir conversar intimidades. Confiar e ganhar confiança. Quando algo não é dito, é como se faltasse pedaço da outra pessoa. E se isso fica subentendido, a gente sente o pedaço faltando, sem saber o que é e, portanto, sem saber como lidar. 
Ser parceiro não é se completar reciprocamente. Mas estar sinceramente disposto a somar.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

AMOR INTERNO

A tese do amor eterno torna todos que não encontraram o seu, tristes cartas fora do baralho

Por Maya Wolf



Acho um absurdo o auwê criado em torno dessas histórias de velhinhos que se conheceram na juventude e depois acabam se reencontrando e casando, na velhice.

Porque essas histórias despertam uma fantasia perigosa nas pessoas: a ideia de que amor eterno existe e de que aquilo é a prova. Prova de que há seres predestinados a se encontrarem para uma única possível felicidade a dois nesta vida, que só precisam de uma oportunidade pra viverem o êxtase da suprema ventura possível na Terra. Ou seja, que amor vem do outro.

E (claro!) em tragédias clássicas famosas, em nome de um amor desses, tudo pretensamente pode ser justificado. Crimes, traição, mentiras. Afinal, não é esta a própria razão da existência: encontrar o ser amado e a ele se unir para sempre??? O que há de impedir, então?...

Isso sempre pode poeticamente significar que o relacionamento vai durar tanto quanto nossas vidas. Mas na prática, quer dizer que podemos morrer antes do ser amado e da relação, o que nos tira da jogada e nada garante sobre o depois.

Apesar do sarcasmo, porém, acredito em relacionamentos duradouros. O que é diferente de amor eterno, no sentido mais romântico e passional dessa expressão de pessoas que encaram o amor como uma novela, peça de Shakespeare ou enredo de cinema que se pode viver na vida real. A tese do amor eterno torna todos que não encontraram o seu, tristes cartas fora do baralho.

Bem, penso diferente. Acredito em encontro e encanto em qualquer tempo. Parceria e relacionamento em qualquer idade. Outras relações não são desvios de uma jornada obrigatória, são vivências e crescimento. São oportunidades de viver bem e fazer bem a alguém especial. Afinal, o que se quer, não é um amor que nos faça bem?...

Em lugar de amor eterno, prefiro acreditar em amor interno, como ponto de sustentação. Como disse Jeanne Moreau, “a velhice não nos protege do amor; é o amor que até certo ponto nos protege da velhice”. Amar é muitas vezes apenas reconhecer o amor que já estava oculto em algum lugar dentro de você, pressionado pelo medo, assumindo a coragem de tentar algo novo com alguém que valha a pena. Que é novo, mesmo que se tenha um passado.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

ISTO NÃO É AMOR III: VAGA PARA PARCEIRO OFICIAL

Andar por aí vendo defeitos num homem, porque ele não é como você espera, é algo profundamente egoísta

Por Maya Wolf




Muitas mulheres têm andado por aí em busca do cara pra ocupar a vaga do parceiro oficial. Elas foram desenhando esse homem na sua mente durante muito tempo e, fora as qualidades almejadas, ainda esperam ser surpreendidas por algum grau excepcional de atenção e gentileza, alguma dose de romantismo e capacidade de ouvir muito, compreendendo-as sempre. Entre outras. Se for lindo, melhor ainda.

Nada demais em querer que a pessoa seja o que a gente quer. E não é raro querer muito. O difícil é colocar toda essa montanha de expectativas em cima de um homem e surgir um sujeito real, que não encaixa na moldura que se inventou, mas que é quem dá atenção, é o que se interessa por você, por seu jeito, sua conversa. É quem quer te levar pra sair e arruma um modo de te beijar. É o que mostra que quer se comprometer.

De duas, uma. Você pode ficar encantada com suas outras qualidades, mesmo não sendo aquelas que imaginava. Ou pode insistir na chatice de querer alguém do jeito que você quer, transformando a pessoa num alvo para sua deformação.

Isso, deformação. Na sua cabeça, você fica tentando enxergar aquilo que quer e se desgasta pra emoldurar a pessoa, pra se convencer de que ele é AQUILO QUE VOCÊ QUER.

E caso você case com ele, vão se desentender, ele vai insistir em não caber na moldura, de jeito algum. Você sonhou com um cara caseiro, que conserta as coisas. Mas ele deixa tudo lá pra jogar bola com os amigos. Você sonhou que estariam juntos, todas as noites, mas ele resolve voltar pra faculdade e ainda passa os finais de semana estudando.

É preciso parar de enxergar a moldura e ver a pessoa. Esquecer aquela coisa de música do Kid Abelha dos anos ’80: “O que você precisa é de um retoque total, vou transformar o seu rascunho em arte final.” Isso fica bonitinho na canção, mas detona a relação.


Andar por aí vendo defeitos num homem, porque ele não é como você espera, é algo profundamente egoísta. Isto não é amor. Querer fazer ele ser do seu jeito, não é amor.

Além disso, provavelmente, ele também descobriu que você é muito mandona, ou que não cozinha como a mãe dele. Talvez ele esteja buscando aprender a viver com isso, porque acha mais importante estar ao seu lado que cultivar uma ilusão...

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

MUITO SEXO, POUCA INTIMIDADE

Existe um prêmio para os corajosos, os que não têm medo de abrir seu coração

Por Maya Wolf


É a cara dos nossos dias. Publicidade cheia de referências sexuais, erotização precoce da infância... E vendo como “todo mundo está fazendo”, parece que as pessoas têm mais necessidade de “fazer” ou de parecer que estão “fazendo”.

Sexo casual, sexo com estranhos são lugares muito solitários. É algo esvaziado que se esgota em si mesmo, como masturbação... Não sobra espaço pra expressão de sentimentos verdadeiros, não há intimidade.


Intimidade é se sentir à vontade pra ser totalmente você, diante do outro. E acolher o ser do outro da mesma forma. É conseguir chegar realmente perto.


Tem muita coisa escrita sobre medo de intimidade. É que se eu mostrar muito do que sou, se o outro tiver um acesso tão pleno e profundo à minha interioridade, vai saber minhas fragilidades e isso me faz frágil diante dele. Dependendo de sua índole, talvez ele até se aproveite desse acesso, para me ferir. Talvez descubra algo que o faça me rejeitar...


No final dos anos 60, as canções do Velvet Underground mostravam como às vezes lidamos com nossas dificuldades com sexo por meio do grotesco, do burlesco e das chamadas "perversões", porque há em nós uma energia que precisa fluir de algum modo. Gostemos ou não. Aprovemos ou não.

Existe, contudo, um prêmio para os corajosos, os que não têm medo de abrir seu coração. Porque nessa aventura cúmplice e parceira, também nos encontramos e nos descobrimos em situações inusitadas, em sentimentos novos. Como Antonin Artaud escreveu a Anais Nïn:

“Eu nunca acreditei encontrar em você a minha loucura. Você tem o mesmo silêncio que eu. E você é a única pessoa diante de quem o meu próprio silêncio não me incomoda. Muitas coisas nos aproximam, mas, sobretudo uma; o nosso silêncio.
Eu quero de você abraços violentos, quero descansar em você e que possamos sentir essa vibração total, eu e você, essa vibração que desperta as coisas do espírito. Somente com você um abraço pode não ser inútil.”

Tem muita coisa envolvida na intimidade que os atletas sexuais ignoram (fazem de conta que não sabem) ou desconhecem (realmente não sabem). Acho que fazer sexo a toda hora é um jeito de mal entendê-lo. De “profaná-lo”. Porque tudo é gostoso em clima de intimidade, quando não é preciso se esconder ou planejar o que dizer/fazer! Assistir TV, cozinhar e comer, lavar louça e deitar... Gostoso como fazer amor na vida, sem nunca parar.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

ISTO NÃO É AMOR II: VOCÊ É UM BOLO DE CAIXINHA?

Quando parar de fingir pra ficar à vontade


Por Maya Wolf



Eu queria entender por que é que tem mulheres que nunca se consideram suficientemente boas, do jeito que são. Suficientemente belas. Suficientemente interessantes. Ficam se comparando e nivelando por baixo e, depois, pra compensar, querem usar um “vestido poderoso”.

Clarice Lispector escreveu em Um sopro de vida: “Eu antes era uma mulher que sabia distinguir as coisas quando as via. Mas agora cometi o erro grave de pensar”.


E parece que o pensamento feminino anda confuso, perdeu aquela clareza de olhar e ver. Se não, pensa: O que afinal você tem de errado? Sério...

Isso é sobre conquistar homens? Então, o que é que esse cara tem de tão maravilhoso, pra você ser tão autocrítica?

Pra se forçar a ser algo que nunca foi?

Você procura dizer coisas apropriadas, que o interessem, mesmo que não seja o que queria dizer. Concorda com ele só pra não discordar. Então você finge.

Homens, no entanto, também fingem. Fingem ser solteiros. Fingem querer um futuro. Fingem ser o que se encaixa na procura feminina. Ou na fantasia das mulheres.

O que eu me pergunto é: até onde isso vai? Quando é que enfim a gente pode se sentir liberada pra aparecer pra ele como realmente é? Pra falar o que realmente pensa e não o que “fica bem”? E andar descalça etc.

E o que é que isso vai representar, a partir de então? Que ele foi laçado e, portanto, passou a ser seguro mostrar o que somos?... Tudo isso me parece insano ou maquiavélico, não tem nada de amor aí...

Veja, eu não sou uma expert da cozinha, mas faço umas coisas gostosas. Agora, vou fazer de conta? Pra enganar quem?

No dia a dia, um bolo de caixinha é uma praticidade. Resolvo um lanche com uma mistura pronta, sem peso na consciência. Eu sou isso, goste ou desgoste.


Tem mulher que gasta fortunas só pra se sentir um pouco melhorzinha. Mas no mundo dos fingimentos, nem sempre ela sabe se está pagando preço de bolo de noiva, enquanto é degustada como se fosse mais um bolo de caixinha. 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

SER BELA E ESTAR BELA

A vida fica mais fácil quando você se solta do que está te prendendo 

Por Maya Wolf




Se você já sentiu alguma raiva das muito bonitas e bem vestidas, você não está sozinha. Acredito que essa é uma das possíveis razões por trás da disseminação astronômica daqueles memes com a imagem do Boromir da Sociedade do Anel, que dizem: “Se encontrar uma mulher com mais livros que sapatos, case com ela.” Raiva e despeito, talvez...


Bom, O Senhor dos Anéis já é fantasia. Casar com Boromir, mais ainda. Agora, achar que um cara vai casar com uma baranga ressentida só porque ela tem uma biblioteca... isso é mesmo final de carreira!!! Mas não de solteirice.

Homens sempre vão olhar pras explicitamente bonitas. Elas entram num lugar e sugam os seus olhares como um grande aspirador. Eles não podem evitar. Mas também não vamos exagerar o significado desse impulso masculino: ele não está obrigatoriamente pensando em te trair e, cá entre nós, talvez nem tenha uma chance real.

Ou tudo o que você acha bonito, já pensa em ter e partir pra cima?... Só se foi louca! Ou infantil.

E se for uma questão de raiva mesmo... sério, não adianta se embarangar, como forma de protesto silencioso. E esperar aparecer algum admirador de Dostoiévski que queira ouvir seu papo intelectualoide (embora esteja no seu direito, se for este o seu desejo). Beleza é um conceito e viver num protesto constante contra ele é incorporá-lo, sem necessariamente parar de sofrer com ele. E a vida fica mais fácil quando você se solta do que está te prendendo.

Não tem nada de ruim em ser bela e inteligente. São duas qualidades que remetem ao Divino.

Há, contudo, diferença entre ser bela (atributo essencial) ou estar bela (ter emagrecido, passado a tarde no salão ou sair de sapatos novos). Ser bela é um todo, não uma casca. Inclui a beleza das palavras, dos gestos, das ideias, das atitudes. A beleza de um saber que não é metido a besta, do respeito, gentileza, humildade. Do sorriso aberto e alegria de viver.

Se a beleza está só na forma, ela é pouca. Ela pode seduzir, mas não permanece interessante por muito tempo e, nem necessariamente, fideliza. Quem te pegou como um troféu, daqui a pouco irá atrás de outro.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

ISTO NÃO É AMOR I: "SE ELE ME DEIXAR, VOU MORRER?"

Quando se começa a agir somente em função de receber um "eu te amo"

Por Maya Wolf




Ninguém quer pensar no fim, ninguém quer lidar com o fim. Por causa disso, às vezes a gente deixa certas coisas chegarem muito longe, na nossa vida... Mascara a realidade.

É muito gostoso ouvir ou perceber que alguém ama você. Mas quando se começa a agir somente em função de segurar uma pessoa, deve haver algo doente e mais profundo a se descobrir por trás disso. Há algo errado. Um sintoma de dependência, que é doença e, não, amor. 


Algumas mulheres podem fazer muito em troca de um “eu te amo”, de uma sensação de parceria. E “eu te amo” é bem diferente de “eu te amo mais que a vida e se você me deixar, eu morro”...

Quando o relacionamento termina, a vida pode mesmo parecer um caos. Sintomas de abstinência, como se faltasse a sua droga. Fica difícil raciocinar.

Por um tempo, você ainda se percebe apenas em relação ao ex e se sente “a sozinha”, “a largada”, “a separada”. Só aos poucos vai se sentindo simplesmente você mesma. Bem normal. Sem um homem como adereço de autoafirmação.


É que tiraram o seu vício. No começo é estranho. A mente está viciada em pensar no cara, mas o desconforto tende a diminuir. Com calma e coragem, você acaba achando o seu equilíbrio. Vai se sentir você, completa como sempre foi, mesmo sem saber que era. Vai se sentir você mesma e muito bem desse jeito.

Quando a onda baixa, você vê que existe vida após o rompimento. Eventualmente irá se lembrar de um tempo em que vivia sem a companhia dessa pessoa... e vivia até bem!!!

Dica dos Narcóticos Anônimos que vale aqui: pra não recair e se sentir melhor, evite hábitos, pessoas e lugares que façam pensar nele. É o pensar que leva à tristeza, à saudade, à dor e à recaída.

Amar não significa apoiar-se no outro. Companhia não significa segurança ou garantia. Enquanto pensa assim, você pula de uma relação pra outra sem se firmar sobre as próprias pernas. Mas no final das contas, é sempre você quem se garante, e mais ninguém.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

DAY AFTER: DEPOIS DA TRANSA

Está cada vez mais comum as pessoas fazerem sexo antes de saber o nome da outra. Pular do desejo para sua realização, sem se preocupar com mais nada

Por Maya Wolf





Muita coisa hoje na sociedade e nos meios de comunicação tem a ver com sexo. Com atrair outra pessoa – quase sempre por meio de atributos físicos e com o fim obrigatório de ir para a cama, o banheiro mais próximo ou o carro, mesmo (se houver e couber).

Está cada vez mais comum as pessoas fazerem sexo antes de saber o nome da outra. Pular do desejo para sua realização, sem se preocupar com mais nada.

A propaganda de cosméticos, calçados e vestuário traz montanhas de ideias sobre como se tornar mais atraente para um homem. Revistas contém toda espécie de dicas para melhorar as chances de estar com alguém, criar uma oportunidade de interação que leve à transa.

Se o que você quer é um pênis por uma noite, acho que o assunto termina aqui. Você já conseguiu o que quer: sentir-se desejada e passar umas horas com um sujeito que acabou de conhecer, sair fora na manhã seguinte, sem vínculo e sem remorsos.

Mas se você quer um namorado ou algo mais profundo, talvez esteja fazendo isso do jeito errado. Para muitas, apaixonar-se dá trabalho demais e sempre pode levar a uma alta dose de frustração. Mas tem o lado compensador, quando se acha alguém que realmente vale a pena.

Só que isso pressupõe mais que uma bunda gostosa e uma progressiva no cabelo. Relações duradouras não se baseiam só em tesão instantâneo, mas em interesse mantido, em conversas renovadas, valores compartilhados, encantamento permanente, decisão madura.

Então, a primeira pergunta pra uma mulher fazer a si mesma é: o que é que eu quero?

A segunda é: o que é que ele quer? Bom, isso já é assunto pra outro post.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

O SALÃO DOS REJEITADOS

A opinião pública pode ser um teste, um termômetro, mas não uma medida absoluta

Por Maya Wolf




Entre 1667 e a Revolução Francesa, quem era quem na arte europeia expunha seus quadros no Salão Oficial de Paris, no Louvre. Os temas aceitos eram os históricos, mitológicos, enfim, tudo muito tradicional.

Na segunda metade do século 19, alguns artistas resolveram mudar o jeito de fazer arte. Escolhiam temas aparentemente prosaicos para suas telas, como bêbados, pessoas comuns num barco ou piquenique, mães passeando com crianças, mulheres em despojada nudez. A luz natural foi valorizada. Mas seus quadros foram recusados pela organização do Salão Oficial.

Como resolver isso? Os recusados fizeram, eles próprios, o Salão dos Recusados, que passou a acontecer nos anos seguintes, como um evento alternativo. Desse modo, sua arte foi sendo reconhecida e admirada. Eles ficaram conhecidos como “impressionistas” (Manet, Monet, Pissarro e outros que hoje ninguém duvida de que foram artistas de verdade).

Às vezes a gente se sente “por baixo” e inverte as coisas, acha que precisa do reconhecimento alheio para ganhar confiança em si. Acha que é o apoio externo que vai revelar o grau de importância do que fazemos.

Para uma mulher, esperar a aprovação de um homem é um jeito comum de se avaliar por menos. Mas pense bem, quantas vezes você duvidou do bom gosto de um homem? De sua inteligência? Esqueça as ocasiões em que estava carente a achava tudo nele perfeito e lindo, tá?...

De fato, a opinião pública pode ser um teste, um termômetro, mas não uma medida absoluta do que devemos ou não devemos fazer.

Posar disso ou daquilo pros outros, é nuvem de fumaça. (Até gosto de agradar, mas não ajo somente pra isso. A gente deve agrado a si mesma, antes de qualquer outra pessoa.)

Para mim, há pureza nisso, em acreditar numa ideia que se teve e que parece boa. Não se esconder de si na falta de apoio alheio, diminuir a própria inteligência e competência em inseguranças de mulherzinha. Eu cresci.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

JEITOS DE SE RELACIONAR A DOIS

As pessoas permanecem casadas porque querem

Por Maya Wolf




É bom que uma história comece com emoção. Paixão.

Mas pra ela continuar, existem outras possíveis fases do relacionamento. Talvez não as queiramos. Nem sempre vamos viver todas elas. Nem todos os homens as desejam para si. Nem todos estão prontos, nem todos seriam bons parceiros. Mas é bom tê-las em perspectiva.

Antigamente, havia uma série de rituais familiares e sociais para um relacionamento. Flerte, namoro, pedido de autorização da família, convivência, noivado, casamento. Era um sistema falível, muitas vezes não funcionava como esperado. Mas pelo menos dava algum tipo de referência sobre como proceder.

Isso mudou ultimamente, mas ainda se pode observar quatro formas básicas de se relacionar com um parceiro:

Emoção / Paixão
Sentimento
Compromisso
Coabitação
Seguir essa trilha não é um processo de “fechar o cerco” em torno do outro. As pessoas permanecem casadas porque querem e, não, porque as portas estão fechadas, como disse Paul Newman. A frase é citada no livro de Yann-Brice Dherbier e Pierre-Henri Verlhac, Paul Newman: A life in pictures. O ator foi casado com Joanne Woodward (a Mulher-Gato da antiga série do Batman) de 1958 até 2008, ano de sua morte.

Relacionamentos duradouros não se baseiam apenas em paixão, porque paixão é um estado necessariamente mutável. A gente se apaixona e desapaixona. Muitas vezes, até, pela mesma pessoa.

Quando experimentamos sentimentos mais fundos, surge o desejo de compromisso, de se envolver mais intimamente com o outro e com a sua vida.

E essa convivência mais longa pode ser em casas diferentes ou na mesma casa. O que vai definir isso é o contexto em que cada um vive, suas características psicológicas e familiares. E o estar disposto a assumir realmente uma vida nova e cuidar das questões do dia-a-dia, junto com a outra pessoa. O que costuma ser um desafio para a maioria e é onde se descobre o quanto se quer aquilo que se quer.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

TRILOGIA DA TRAIÇÃO III: O FUNDO DO POTE

Traição é um ato concreto, deslealdade é falta de caráter

Por Maya Wolf




A vida às vezes tira uma pessoa da sua frente, para que você enfim se veja. Ou para que possa encontrar alguém mais compatível com você. Se você evoluiu e o parceiro não, isso pode acontecer. (E vice-versa.)

Mas o processo pode ser difícil. Quando um namoro ou casamento termina, a gente precisa esvaziar o pote, porque em geral se sente lotada de emoções pesadas de carregar: raiva, tristeza.

O ego é atingido: “Fui trocada?” “Ele se desinteressou de mim? Como?” O ego é o primeiro responsável pela dor que se sente. Ele quer culpar alguém, não quer ver que o fim era previsível, não quer sair das suas ilusões, quer voltar a se sentir “por cima”. Não aceita que a mudança pode ter sido algo bom, afinal.

Mas mesmo quando nosso melhor humor vai ressurgindo, às vezes pode restar algo no fundo do pote que continua lá. Pontiaguda e cortante, impedindo que vejamos o outro do mesmo modo que víamos antes. É a deslealdade. Não é a só infidelidade, mas a deslealdade, a mentira deliberada, persistente e insensível que enfim se descobriu. Traição é um ato concreto, deslealdade é falta de caráter.

A deslealdade enfeia qualquer história bonita. Se conhecer as armadilhas do ego, você até consegue superar o orgulho ferido. Mas sentir que seus laços com o outro eram de verdade só do seu lado, que a outra parte era falsa e que o que dizia era falso, destrói algo mais sério. Destrói sua confiança, faz questionar o seu senso de realidade. Pode torná-la desconfiada ou arredia.

Procure, ainda assim, não perder a parte melhor da realidade junto com a mais cortante, num ceticismo doentio. O matemático e físico Henri Poincaré afirmou que duvidar de tudo ou acreditar em tudo são duas estratégias convenientes, mas que nos dispensam da necessidade de refletir. Nenhum dos extremos previne erros.

A vida quer que você tire de suas experiências um ensinamento, não, um misto de desesperança e secura afetiva. Foi um tombo. Enxugue as lágrimas e limpe a poeira da roupa. Aprenda e siga.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

MULHER OUVE O QUE QUER

O amor “romântico” é bem mais obsessivo e individualista do que se quer admitir 

Por Maya Wolf



A gente tem um monte de pensamentos e conceitos sobre namorar, que incluem mais do que a paixão e a atração, embora boa parte do nosso tempo mental fique ocupada com essas duas.

Graças a isso, quando nos apaixonamos, nossa mente prega peças.

Queremos apenas ver a perfeição de um sentimento puro e maravilhoso quando, em geral, somos atraídas por alguém com atributos específicos, muito concretos e ligados à realidade cotidiana. Ele tem certo tipo físico, idade entre “x” e "y", veste-se de certo modo e frequenta tal ou qual lugar, 
é de uma determinada faixa socioeconômica. Há aspectos culturais, religiosos, sexuais, estéticos, familiares e morais envolvidos – mais do que em geral se considera. Se ele ronca ou fala dormindo, vai descobrir quando dormirem juntos.

Isso tudo joga a realização de um ideal ou sonho dourado bem no meio da realidade cotidiana. Mas, frequentemente, ignoramos isso porque somos mulheres apaixonadas, vemos e ouvimos o que queremos ver e ouvir.

Em geral, uma mulher apaixonada ouve basicamente quatro coisas, dependendo da fase do relacionamento em que se encontra. Ou seja, traduz tudo o que é dito, balbuciado e até roncado na madrugada, como:

“Ele quer ficar comigo.”

“Ele quer ficar só comigo.”

“Ele quer ficar só comigo por muito tempo.”

“Ele quer ficar só comigo por toda a vida.”

Nada contra. Nada de condenar o romantismo por si mesmo. Mas o fato é que o amor “romântico” é bem mais obsessivo e individualista do que se quer admitir. O “pensar no outro” traz sempre uma imensa dose do “pensar em si”.

E não só ignora aspectos da realidade, como a distorce. Que leva ao “querer as coisas do seu jeito”. Que leva a “torcer a realidade pra ficar do seu jeito”...

Frase conhecida da escritora Anaïs Nin em Seduction of the minotaur (Sedução do minotauro) diz que não vemos as coisas como elas são, nós as vemos como nós somos. Idem, muito idem mesmo, nesse caso, para ouvir.

terça-feira, 1 de julho de 2014

TRILOGIA DA TRAIÇÃO II: É POSSÍVEL PERDOAR?

Traição, seja como for, sempre se traduz por um ato

Por Maya Wolf



As pessoas costumam chamar muitas coisas de traição. A famosa “pulada de cerca” é uma delas. Mas beijo, encontro, até conversa virtual pode ser traição, dependendo do combinado e do que se fez.

Traição, no entanto, seja como for, sempre se traduz por um ato. A violação de um contrato, a quebra de uma promessa. Em geral, não se considera traição algo que foi apenas pensado ou desejado e não realizado.

É possível perdoar e recomeçar? Depende. Vamos dar uma olhada nessas duas situações hipotéticas e diferentes.

Situação 1: O Cara 1 saiu com uma ex, uma vez, e eles transaram. Ele chega e confessa. Você percebe que ele está constrangido e quer que você saiba a verdade, mesmo ciente de que haverá consequências.

Situação 2: O Cara 2 conhece uma mulher. Saem uma, duas, três vezes... dormem juntos... até que vira um caso. Ele engana você pra continuar com ela e age como se nada estivesse acontecendo. Você acha que a qualidade da relação de vocês mudou, começa a imaginar que há outra na história e acaba descobrindo que sim.

A Situação 1 é um caso simples de traição, conforme definido acima. A traição que persiste no tempo, no entanto, já é outro caso. E é onde começamos a pensar sobre a deslealdade, como a da Situação 2.

A Situação 1 pode significar que ele é infantil, fraco, ou, mesmo, que não ficou claro entre vocês o que pensam sobre certo e errado. Que cedeu a um impulso, curiosidade ou oportunidade.

A Situação 2 indica que ele é uma pessoa daninha e não tem caráter. Ele está sacaneando você e quer fazer parecer que está tudo certo, pra continuar com as duas.

O Cara 1, por mim, receberia uma conversa e uma real segunda chance. Se isso ajudar, o psicanalista e psiquiatra Luiz Alberto Py escreveu que a traição deve ser encarada como um problema de quem trai e, não, de quem foi traído.

O Cara 2 é um mentiroso, superficial, covarde. Só perdoe se puder aceitar o que ele é e conviver com isso.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

TRILOGIA DA TRAIÇÃO I: A DOR DA TRAIÇÃO

O que fizer, não faça por baixeza e mesquinhez

Por Maya Wolf



A dor da traição tem dois componentes estatisticamente relevantes. Tanto na força que adquirem dentro de nós, quando na quantidade de mulheres que passam por eles:

1. Querer fazer doer no outro com a mesma força que doeu na gente.

2. Tentar se sentir melhor provando que ainda consegue atrair alguém.

Já passei pelas duas e pode estar certa de que doer no outro não melhora nada o que você sente. Você não se cura, machucando o outro. Você pode até achar que foi “vingada”, mas isso dura pouco e não costuma acrescentar nada de positivo à sua vida, além de (geralmente) iniciar uma sequência desagradável de acontecimentos e revanches que não vão permitir que você se solte da antiga história.

E você merece viver uma nova história.

A gente condena o outro porque julga e a gente só julga porque não se enxerga direito. Porque não percebe que podia viver algo semelhante e escorregar no mesmo trecho do velho caminho das atrações instantâneas, dos encantamentos fáceis. A dor distorce a visão, já limitada, de nós mesmas.

Não querer mais ficar com ele por causa disso, é um direito. Perdoar e tentar remendar o tecido do relacionamento, também. O que fizer, não faça por baixeza e mesquinhez. Faça de acordo com a sua consciência e vai se sentir bem.

Podemos, ainda, achar que o outro se desinteressou de nós por nossa causa e, então, ficamos ansiosas pra ver se nossa capacidade de conquista ainda funciona. Mas isso também pode criar uma sequência indesejável de acontecimentos. Caras novos eventualmente fazem você se sentir viva, mas frequentemente decepcionam... Enfim, outra decepção pra sua lista.

A lei do carma, versão Aerosmith em “Dream On”, diz: “Vivendo e aprendendo dos tolos e dos sábios, você sabe que é verdade: tudo que você faz volta para você...” Moral: Melho
r ser a sábia que ser a tola. Moral 2: Essa volta vale pro ruim e pro bom.

terça-feira, 24 de junho de 2014

CASAR NÃO É GARANTIA

Bom estar juntos e compartilhar, mas é preciso estar inteiro pra ter o que somar

Por Maya Wolf 



Você traz na sua cabeça a ideia de um casamento, de um relacionamento consistente, duradouro, fortemente baseado em respeito, admiração mútua e atração que se mantém no correr dos anos. Talvez tenha passado boa parte da sua juventude planejando e preparando isso.

Você mergulha de cabeça, sonha, luta, faz concessões. Você é do tipo carinhosa, dedicada, sabe o que fazer numa cama, tem boas conversas. Não é superficial nem aproveitadora, mas está disposta a realmente permanecer ao lado da outra pessoa, cuidar na doença, celebrar na alegria, ajudar nos apertos... Um dia, parece que seus objetivos se distanciam e quem pensou ser uma alma companheira vira um desengano, quando não, um desapontamento.

Nas piores hipóteses, um passado. Na melhor das hipóteses, uma bela lembrança. Mas, onde foi parar você, no meio disso tudo?

Talvez vocês dois tenham se perdido na confusão da vida comum. Talvez, o distanciamento seja simplesmente um sintoma da necessidade de reencontrar o que um dia vocês foram, o que um dia almejavam. Sua espontaneidade mais essencial.

Talvez haja remédio; talvez, não.

Mulheres fazem concessões sobre concessões como se fosse normal. Porque era pra ser bom estar juntos e compartilhar, mas no fundo, às vezes, é você que faz tudo, simplesmente porque ainda enxerga nele algo bacana (nem que seja transar com você e – thanks God! – não te bater...).

Mas compartilhar é mútuo e é preciso estar inteiro para ter o que somar. E há casos em que investimos tanto de nós, que ficamos sem reserva. Não é bom fazer isso, como se o sentimento ou relação fossem eternos, porque nada disso é garantido.

Nem você, com toda a sua autodoação interna, pode garantir que nada vai mudar, porque há mais coisas envolvidas ali que a outra pessoa e essa sua vontade férrea e empenho de Atlas, que é aquele ser mitológico que carrega o mundo inteiro nas costas.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

O JOGO DO SEDUTOR

Você entra no jogo porque precisa acreditar no que ouve e vê

Por Maya Wolf



Um jogo consiste numa atividade física ou intelectual com regras. Regras são padrões de conduta que os jogadores aceitam para participar do jogo. Se não há aceitação de regras, não há jogo possível.

Como é que eu jogo xadrez com um oponente que não segue as regras? Não tem como!

Talvez você já tenha reclamado, já tenha entrado no jogo de um sedutor inveterado, um inseguro obcecado pelo poder que exerce sobre as mulheres, a fim de confirmar seu poder para si mesmo.

Pense: você compra um número de rifa e fica satisfeita enquanto espera o sorteio. Quando ele acontece e você perde, vai reclamar que o número foi caro, que a organização agiu errado? Vai desdenhar o prêmio que, afinal, você perdeu?... Quem aceitou jogar, pra começar?

Pois bem, o sedutor só joga esse jogo porque você entra nele. Porque você é seduzível.

Existe algo em você que quer acreditar no que ele diz, na sua atenção, na sua gentileza, nas coisas agradáveis que ele observa em você. Você fica capturada pelo olhar que não desvia do seu, mas, não porque você o prendeu e, sim, porque você é a presa da vez.

O caso é que você entra no jogo porque precisa acreditar no que ouve e vê. Você não se gosta o bastante. Também anda meio insegura sobre sua aparência, seu poder de sedução. Por isso, sua mente crê que no que ele diz e faz. Desse modo, você se sente melhor consigo mesma, se sente em forma e atraente, reconhece suas qualidades. 

Muitos relacionamentos até sobrevivem dessas mentiras, por um período. E quando vêm as desilusões inevitáveis, no tempo que é irmão da verdade, talvez você já esteja tão habituada que decida manter o jogo. Só pra não ficar sem jogar com ninguém. O que faz de você tão jogadora quanto ele.