segunda-feira, 13 de outubro de 2014

BLINDADOS SÃO LUGARES FECHADOS E OPRESSIVOS

Levanto o estandarte da liberdade de ser e de querer 

Por Maya Wolf


Tive uma fase em que sonhava para mim um monte de coisas. Sonhava uma história bonita, como as de casais amigos meus que estão juntos por longo tempo. Não diante dos homens ou da lei, mas primeiramente de si mesmos.

O fato, porém, é que não se sabe ao certo a que custo essas uniões persistem e se eu teria como bancar algo assim. Sempre me pareceu possível. Mas tropecei no caminho e caí das minhas projeções. Então perdi essa visão bonita, de possibilidades, e prefiro ficar com o que está acontecendo a cada momento, mesmo ao me relacionar.

A liberdade de ser quem somos e fazer o que nos faz bem, essa liberdade é algo muito precioso e ninguém devia achar-se no direito de tirá-la. Mas alguns relacionamentos sobrevivem porque alguém abriu mão da sua, submetendo-se aos caprichos, implicâncias e até loucuras de algum outro.

Eis porque levanto o estandarte da liberdade de ser e de querer, na medida em que não coloque o próximo em risco e que se assuma a responsabilidade pelas escolhas.

Por isso, repudio a ideia de “casamentos blindados”. Blindados são tanques, são carros-fortes. São lugares fechados e opressivos. Podem até ser Limusines, mas com terror de assaltos e atentados. Se a manutenção do casamento ficou mais importante que a sobrevivência do amor e da lealdade, enquanto sentimentos naturais e espontâneos, será que vale a pena ser casado?...

Quero encontrar uma pessoa entre tantas, um ser comum. Ele certamente começará me mostrando o seu melhor, mas, se continuarmos juntos, algum dia, estarei também cara a cara com o seu pior. E ele com o meu. Quero então saber como vou reagir, pois não posso garantir. Se não desistirmos de nós, vamos dar um jeito de seguir lado a lado.

Todo o viver sempre envolve certo risco. E lidar bem com isso é um tipo de crescimento emocional. No fundo, penso como Milan Kundera escreveu em A insustentável leveza do ser. “O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor (esse desejo se aplica a uma série inumerável de pessoas), mas pelo desejo do sono compartilhado (este desejo diz respeito a uma só pessoa). Algumas pessoas com quem dormimos nos permitem viver isso. Dormir com alguém ao lado pode ser uma experiência muito mais profunda do que sexo em si. Mas não é uma experiência que se pode ter com qualquer um...”

Acordar juntos é um exercício diário e, enquanto olhar para o meu parceiro e sorrir, enquanto ele sorrir para mim um “bom-dia” carinhoso, juntos estaremos.

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