O amor “romântico” é bem mais obsessivo e individualista do que se quer admitir
Por Maya Wolf
Graças a isso, quando nos apaixonamos, nossa mente prega peças.
Queremos apenas ver a perfeição de um sentimento puro e maravilhoso quando, em geral, somos atraídas por alguém com atributos específicos, muito concretos e ligados à realidade cotidiana. Ele tem certo tipo físico, idade entre “x” e "y", veste-se de certo modo e frequenta tal ou qual lugar, é de uma determinada faixa socioeconômica. Há aspectos culturais, religiosos, sexuais, estéticos, familiares e morais envolvidos – mais do que em geral se considera. Se ele ronca ou fala dormindo, vai descobrir quando dormirem juntos.
Isso tudo joga a realização de um ideal ou sonho dourado bem no meio da realidade cotidiana. Mas, frequentemente, ignoramos isso porque somos mulheres apaixonadas, vemos e ouvimos o que queremos ver e ouvir.
Em geral, uma mulher apaixonada ouve basicamente quatro coisas, dependendo da fase do relacionamento em que se encontra. Ou seja, traduz tudo o que é dito, balbuciado e até roncado na madrugada, como:
“Ele quer ficar comigo.”
“Ele quer ficar só comigo.”
“Ele quer ficar só comigo por muito tempo.”
“Ele quer ficar só comigo por toda a vida.”
Nada contra. Nada de condenar o romantismo por si mesmo. Mas o fato é que o amor “romântico” é bem mais obsessivo e individualista do que se quer admitir. O “pensar no outro” traz sempre uma imensa dose do “pensar em si”.
E não só ignora aspectos da realidade, como a distorce. Que leva ao “querer as coisas do seu jeito”. Que leva a “torcer a realidade pra ficar do seu jeito”...
Frase conhecida da escritora Anaïs Nin em Seduction of the minotaur (Sedução do minotauro) diz que não vemos as coisas como elas são, nós as vemos como nós somos. Idem, muito idem mesmo, nesse caso, para ouvir.

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